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Num dia desses fui almoçar em um restaurante próximo da minha casa, pois como era sábado, me permiti folgar deste afazer doméstico. Assim como eu, várias outras pessoas tiveram a mesma idéia. Resultado: restaurante lotado. Servi-me tranquilamente no buffet e fui batalhar por um espaço em alguma mesa.

Acabei me deparando com um menino que, na primeira impressão, parecia muito calmo. Quanta ilusão. Bastou à garçonete chegar com o meu refrigerante para ele colocar suas manguinhas de fora.

– Tira essa garrafa da minha frente! Não está vendo que eu to assistindo TV?

Então, perguntei onde estavam os seus pais.

– Eles estão lá oh. Eu vim sentar sozinho pra eles não verem que eu peguei só batata-frita.

Depois dessa frase ele não parou mais de falar.

– Tu já viu o filme a Morte pede carona? É bem legal, eles acham um corpo sem cabeça num rio. Esse filme é só pra quem tem 18, mas eu vi. Eu fiquei com medo depois, nem dormi de noite.

Não me contive. Acabei dando trela pra ele, precisava saber quanto anos tinha aquela pequena criatura que falava comigo, cuidava onde estavam os pais, comia e assistia televisão, tudo ao mesmo tempo.

– Eu tenho sete anos. Tu já viu o Navio fantasma? Tu já viu a Estrada da morte?

E assim, foi. Foram mais de quinze perguntas relacionadas ao “tu já viu o filme tal”. Fiquei espantada que um menino daquela idade tivesse tanto conhecimento sobre filmes de terror e falava com uma segurança incrível sobre cada um deles. A sua mãe nos observava e vendo que estávamos conversando o tempo inteiro veio até a mesa.

– Filho, deixa a menina comer em paz. Tu quer que eu pegue mais alguma coisa pra ti?

– Sim, sobremesa.

Como adoro filmes infantis, especialmente animações como Procurando Nemo, A Era do Gelo, Bee Movie entre outros, toquei no assunto para ver se ele tinha o mesmo conhecimento sobre esta outra temática.

– Esses filmes são de criança. Eu assistia isso quando eu tinha cinco anos. Tu olha a novela das oito?

Além de adorador de filmes é noveleiro! Ele acabou de comer as suas batatas e de repente, levantou e começou a correr ao redor da cadeira. Perguntei o que estava acontecendo.

– Eu estou correndo para a comida baixar mais rápido e dar espaço para entrar a sobremesa.

Quanta imaginação! E ali ele ficou, deu umas seis voltas na cadeira e sentou de novo para devorar o docinho. Os pais vierem até a mesa e ele foi embora, sem ao menos dar tchau. Uma paz desceu sobre o lugar, mas confesso que eu senti falta daquele pequeno espoleta.

Comecei a me lembrar da minha infância. Na idade dele passava mais tempo brincando com as minhas amigas do que na frente da televisão. O computador era novidade, só tinha acesso na escola e era uma vez por semana. Além disso, tinha que dividir o pouco tempo que passava junto aquela fantástica máquina com algum colega, já que haviam mais alunos que computadores.
  Foto: Daniela Machado

Hoje, estes pequenos são muito mais espertos e inteligentes do que nós quando éramos pequenos. Quando eles se deparam com alguma tecnologia observam por um tempo e já aprendem a mexer. No meu tempo, levávamos algumas semanas até dominar essas maravilhas digitais. Atualmente bastam algumas horas para as crianças saberem todas as funções do celular, da máquina fotográfica, da filmadora, do vídeo game.

E as crianças são assim, nos surpreendem a cada momento e nos trazem alegria quando menos esperamos. Fiquei feliz com a nossa conversa, afinal dificilmente as pessoas puxam papo com tanta facilidade e são tão sinceras a cada palavra que pronunciam. As crianças não, se elas gostam de você vão te alugar, mas se não gostam vão te tirar do sério e mostrar o quanto você é chato. Avaliando a situação acho que ele até que foi com a minha cara.

O que me deixou bastante preocupada com a nossa conversa foi às coisas que ele anda assistindo no cinema e na televisão. Passei o dia pensando naquilo e comecei a notar que, assim como o aquele menino, a maioria das crianças mandam no controle remoto em casa.

Geralmente os pais não cuidam da classificação indicativa dos programas e filmes e acabam deixando os filhos livres para escolher o que querem assistir. Dependendo das cenas que se passam, as crianças ficam impressionadas e assustadas. Claro que em alguns casos se mostra a realidade, mas tudo tem seu tempo para ser aprendido. Cabe aos pais terem bom senso e responsabilidade sobre as escolhas dos seus filhos. E cabe a todos nós darmos mais valor a essas belas e espertas crianças.

Opnião publicada no site Novo Hamburgo.org

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Na “Semana Nacional de Luta em Defesa da Formação e Regulamentação Profissional dos Jornalistas”, que aconteceu entre os dias 11 a 17 de agosto, jornalistas de todo o país foram às ruas protestar pela obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Contudo, a maioria das pessoas nem sequer soube que este protesto estava acontecendo, pois a mídia não costuma falar de si própria.

Responsáveis por divulgar as informações locais, nacionais e até mundiais, os veículos de comunicação fazem parte do cotidiano da sociedade desde 1455, quando Gutenberg inventou a prensa dos tipos móveis. De lá até os dias de hoje, a fantástica evolução das técnicas de divulgação e reprodução da notícia proporciona a comunidade o conhecimento quase que instantâneo do acontecimento.

Ilustração: Divulgação
Os jornalistas são os profissionais capacitados a obter, tratar e divulgar os fatos e, para isso, precisam obedecer a diversas técnicas, saberes e ética. Porém, nem todos são capacitados, pois não cursaram uma faculdade, não refletiram sobre as teorias da comunicação e do jornalismo e tampouco sobre a ética da profissão. Sou a favor do diploma e é por este motivo que vou dedicar este texto a mostrar o quanto é necessário ter um bom preparo intelectual, ético e técnico para ser jornalista.

As tarefas diárias de um repórter são muito mais complexas do que se imagina, visto que o grande número de pautas a serem executadas, em um curto espaço de tempo, obedecendo à ideologia do veículo para qual trabalha e, em alguns casos, a escassez de recursos e equipamentos faz o jornalista ficar frente a frente com os princípios do Código de Ética da profissão e decidir segui-los ou não.

Diversos autores debatem esta questão e nos fazem refletir sobre o trabalho destes profissionais. Para discorrer sobre o assunto, busco embasamento no livro Ética no Jornalismo, de autoria de Luciene Tófoli. O primeiro ponto a ser levantado diz respeito os critérios de seleção de uma notícia. Somente são publicados aqueles fatos cujo jornalista julga ser de importância para a sociedade. Isto é o que os profissionais costumam chamar de critérios de noticiabilidade.

O fato, para se tornar uma notícia, deve apresentar um conjunto de critérios de relevância, como o seu conteúdo, a disponibilidade de acesso do repórter ao material e/ou as fontes e ao interesse do público ao qual ela será destinada. Grande parte das redações recebe diariamente uma enorme quantidade de notícias oriundas de agências de informações, o que acaba criando uma agenda previsível das notícias que serão impressas ou irão ao ar. Cabe aos profissionais da área fazer a mediação, selecionando as informações relevantes e verificando a sua credibilidade.

Por vezes, a intimidade de pessoas pública, principalmente atrizes/atores, e cantares/cantoras, é encarada como um uma notícia de interesse da população. E como o público gosta disso! Programas televisivos correm atrás de flagrantes, fofocas e novidades sobre a vida pessoal dos famosos. Revistas dedicam páginas e páginas a fotos posadas ou tiradas sem autorização. Já não sabemos mais o que é público e o que é privado. Ou fingimos não saber. Nos locais públicos gratuitos ou pagos ninguém mais tem direito a sua privacidade.

O artigo 6° do Código de Ética do Jornalismo é claro “É dever do jornalista […] respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão”. Infelizmente é a invasão da vida privada que gera os maiores lucros para a imprensa brasileira. O mercado sempre está sedento por informações que causam polêmica. Com a inovação tecnológica o consumidor virou produtor que divulga através de fotos e vídeos na internet cenas dos famosos. O Youtube é o maio exemplo disto.

Ilustração: Divulgação
Após o advento da internet podemos perceber um fenômeno cada vez maior: o mimetismo midiático. Obrigados a produzir em larga escala e a baixo custo, alguns veículos se valem de outros, copiam as informações e as colocam no ar na sua emissora, canal, website ou página impressa. Falta tempo para investigar, confirmar com as fontes se o fato é verídico ou procurar outras que as esclareçam melhor, abordar a notícia sobre um prisma diferente, contando os vários lados da história.

E sem isto, o jornalista acaba desrespeitando o seu receptor. O Ctrl+C / Ctrl+V passa por cima do direito autoral, o qual é abordado no artigo 6° do Código de Ética “É dever do jornalista: […] IX. Respeitar o direito autoral e intelectual dos jornalistas em todas as suas formas”.

E por falar em internet, se caiu na rede já não tem mais volta. Que diga a Daniella Cicarelli e Renato Malzoni, flagrados em cenas picantes no ano de 2006 numa praia de Cádiz, na Espanha. Esse vídeo, gravado por um turista, causou tamanha polêmica que foi parar até na justiça. Mesmo depois de ser retirado ar, ele continuou a circular.

O que dizer então do reality show? O Big Brother Brasil já se encaminha pra a nona edição, sempre batendo recordes de audiência. O telespectador busca o espetáculo, ele se identifica com esta “dramatização da realidade”, quer assistir a intrigas e sacanagens, por isso são tantas as novelas que passam diariamente nos canais da TV aberta.

Alguns até podem ficar bravos ao ler esta opinião, mas são raras as exceções que trocam de canal para assistir a um programa educativo, um telejornal ou um documentário não é? Uma espiadela que seja já basta para cativar o público, que acaba se tornando fiel. Mas a culpa não é só daquele que está com controle remoto na mão, é da própria mídia que tenta satisfazer os desejos da sociedade criando, copiando e repetindo os espetáculos de pura dramaticidade que deram tão certo.

O leitor, ouvinte ou telespectador espera que os meios tenham uma função política, econômica, educativa e de entretenimento. Todavia, o que mais se espera de um veículo é o seu compromisso com a verdade. Segundo o artigo 4°, a veracidade com o relato dos fatos é um compromisso fundamental dos jornalistas. A notícia, para autores como Cremilda Medina e Nilson Lage, é um produto a venda que obedece às lógicas mercantis. E é justamente por ter de pagar pela informação que as pessoas esperam que ela seja precisa, reproduzida de forma fiel e correta.

Quando a notícia extrapola a realidade, ganhando pitadas de invenção e grandes toques de exagero cai no sensacionalismo. O primeiro jornal editado nesta linha foi o Publick Occurrences, dos Estados Unidos, o qual teve sua primeira edição publicada no dia 25 de setembro de 1690. A imprensa amarela, na definição estadunidense, ou a imprensa marrom, termo brasileiro, ganhou espaço mundial e continua sendo praticada até hoje. As conseqüências deste “falso jornalismo” são as mais diversas possíveis e disto sim sabemos que o público não gosta. Ao mentir, omitir ou inventar, o jornalista perde o seu público e estraga sua reputação.

Por isso, a apuração dos fatos deve contar com fontes credíveis, que tenham autoridade para discorrer sobre o assunto e que este seja de interesse a sociedade. Fontes estas que podem ser desde cidadãos comuns, a autoridades, entidades ou instituições. O artigo 5° do Código de Ética do Jornalismo assegura o sigilo da fonte quando esta for necessária para o exercício de sua profissão. O caso Ibsen Pinheiro e o Caso Escola Base estão aí para comprovar que a falta de fontes seguras pode acabar com a carreira e até com a vida pessoal de pessoas inocentes.

Neste item o jornalista deve estar sempre muito atento para não ser agendado pela fonte, fato que é comum quando se trata de um político. Alguns são capazes de dar tantas voltas a ponto de acabar não respondendo ao que foi perguntado e o jornalista corre o risco de acabar fazendo uma matéria que não seja de interesse público. Às vezes, pela correria do dia-a-dia ou por falta de profissionais que possam falar com autoridade sobre um determinado assunto, o jornalista opta por procurar as mesmas fontes, o que pode virar em um contato pessoal maior e atrapalhar o trabalho jornalístico.

Outras questões éticas são debatidas em relação ao exercício do jornalista, como o uso de câmeras escondidas e microfones ocultos e a falsa identidade. Segundo o Código de Ética do Jornalismo, em seu artigo 11° “o jornalista não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada […] salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas as outras possibilidades de apuração”.

Cabe ao meio de comunicação identificar o que realmente só será conseguido através de câmeras ocultas e de disfarce. É comum, especialmente na televisão, assistirmos matérias realizadas com câmeras ocultas, como foi à verificação feita nas farmácias sobre a venda do antiinflamatório Prexige, o qual foi proibido de ser posto a venda devido às incertezas a respeito da segurança hepática do seu uso.

Os jornalistas, por vezes, perdem o controle e passam por cima do Código de Ética da profissão, mas o receptor das informações espera que ele saiba agir de forma digna e correta aos desafios encontra no seu cotidiano. Felizmente as pessoas ainda acreditam nos meios de comunicação, pois eles são os repensáveis por informar e dar voz aos cidadãos, denunciando aqueles que não cumprem a lei e trazendo fatos relevantes para o andamento da sociedade. E ainda bem que existem muitos profissionais diplomados e éticos capazes de comunicar de forma verdadeira e apurada os fatos.

Opinião publicada no site Novohamburgo.org