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Vergonhosa saúde públicaMeio dia de quarta-feira. Foi nesse dia e neste horário que o pesadelo começou. Minha bexiga já dava sinais de que tinha alguma coisa errado acontecendo, mas como toda boa neta de italianos recorri a um bom chazinho de quebra-pedra. Mas não adiantou, na metade da semana as dores e a queimação aumentaram e a sensação de estar sempre com a bexiga cheia era o que mais incomodava.

Não tive escolha, pedi dispensa do trabalho, peguei minha bolsa e fui correndo para o posto de saúde do centro de Novo Hamburgo. Chegando lá desanimei, olhei para a quantidade de pessoas que se encontravam naquele lugar e tive a certeza que iria passar longos minutos à espera de atendimento. Uma hora e meia. Esse foi o tempo em que ali fiquei parada, com dor, com ardência na bexiga e com raiva.

Raiva de pagar tantos impostos e não ter direito a uma saúde pública de qualidade. Raiva dos prefeitos que a cada eleição prometem investir na saúde nada fazem. Raiva de mim mesmo por sempre acreditar que um dia as coisas nesse país podem mudar para melhor.

A cada minuto que passava minha sensação de impotência aumentava. Olhava para as várias crianças que gemiam de dor no colo de seus pais, mães e avós sem poder fazer nada. Pequeninas mãos enxugavam lágrimas. Rostinhos cansados e desanimados retratavam o fiel descaso da saúde pública neste país.

Sentei no único lugar vago, ao lado do balcão de atendimento, onde acompanhei algumas histórias. Um pedreiro chegou ferido. A moça da recepção pediu para ele se encaminhar ao Hospital Municipal, onde poderiam atender ele mais rápido e fazer um Raio X de suas costelas. Uma senhora pediu para marcar um exame e foi informada que deveria se dirigir ao posto de saúde mais próximo de sua casa. Uma mulher chegou querendo ver a sua mãe que ali estava internada, mas teve dificuldades de entrar e ficou na sala de espera caminhando de um lado para outro agoniada. O senhor que vendia refrigerante e água mineral entrou três vezes para oferecer suas mercadorias.

Médicos
Já fazia um bom tempo que estava ali quando uma menina entrou e desviou a atenção de todos os olhares para si. Sentada na cadeira de rodas, ela tinha sérios problemas de estruturação óssea, provavelmente causados pela paralisia infantil. Cabelos e olhos castanhos, pele lisa como uma ceda. Seu rosto lembrava o de uma boneca. Ela olhou assustada para as pessoas. Com certeza queria entender o porquê dessa não aceitação de quem é especial. O médico logo a chamou e ela deu um sorriso. O sorriso mais doce e sincero que já vi.

Por alguns minutos me coloquei no lugar dela e depois, quando voltei a mim,me senti um nada. Meus problemas passaram de uma grande pedra para um grão de areia. Minha dor diminuiu, porque a dor daquela menina deveria ser muito maior. Além da dor física, ela enfrenta a dor da rejeição, do sentimento de pena que as pessoas têm por ela. Isso deve causar uma enorme tristeza naquele coraçãozinho.

Finalmente fui chamada. A enfermeira tirou minha pressão, perguntou o que eu tinha e pediu para eu aguardar até ser chamada. Aguardar. Depois de meia hora fui chamada, mas tive que esperar mais um pouco até ser atendida. Nesse meio tempo fiquei sentada na frente da sala do pediatra. De cinco em cinco minutos uma criança entrava e saia do consultório. Espantei-me coma rapidez de cada consulta. Será que é possível examinar uma criança em tão curto espaço de tempo? Acredito que não. Se fosse uma consulta particular a criança ficaria, no mínimo, uns vinte minutos com o médico.

Finalmente a médica me chamou. Uma castelhana de óculos, baixa, de cabelos médios e avermelhados. Sentei. Sem olhar para minha cara ela perguntou o que eu tinha. Expliquei. Ela disse que não era preciso fazer exames para confirmar, todos os sintomas levavam a crer que era infecção urinária. Sem encostar em mim, pegou o bloco e a caneta e começou a escrever. Três remédios, por sete dias e ponto. Perguntou se eu estava naqueles dias e grávida. Respondi: não e não. Tchau.

Fui embora mais indignada do que cheguei. Esperei tanto tempo naquele posto para isso? Quanta arrogância e descaso com o ser humano. Como uma mulher dessas se julga médica tratando os pacientes como coisas? Nunca tinha visto isso, um médico que não encosta no paciente. Não olhou minha garganta e nem meus ouvidos, não apertou a minha barriga, nem escutou minha respiração e as batidas do meu coração. Ela nem ao menos olhou para os meus olhos! E se eu estivesse grávida ou naqueles dias, será que os remédios poderiam me dar algum efeito colateral? Se dessem, azar o meu.

Já dizia a minha queria avó “Pobre dos pobres”. Quem não tem um plano de saúde está condenado a recorrer a este tipo de profissional. Passamos quatro meses do nosso ano pagando impostos e recebemos em troca descaso, humilhação e abandono. Se temos saúde temos tudo e, se não temos, pobre de nós.

Foto: Daniela Machado

A luta pela ética na política e pelos direitos dos cidadãos já fez milhares de estudantes saírem das salas de aula e invadirem as ruas desse país. Os movimentos estudantis existem no Brasil desde a época da escravidão, mas foi só a partir da criação da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 13 de agosto de 1937, que esses jovens começaram realmente a lutar pela democracia e pela justiça social no Brasil.

Desde então, a UNE participou de diversos movimentos importantes como a manifestação contra o regime nazi-fascista que se instaurou no país com o Estado Novo. Também exigiu uma posição do Brasil contra o Eixo durante a Segunda Guerra Mundial e lutou pelo fim da ditadura Vargas.

Em 1947 a UNE aderiu à campanha O Petróleo é Nosso e nos anos 60, somada às representações estaduais de estudantes universitários, se posicionou ao lado dos movimentos populares.

Querendo mudanças, os movimentos estudantis criam os Centros Populares de Cultura e levam as discussões dos problemas sociais brasileiros a diversas regiões do país através do teatro, do cinema e da música.

A União Nacional dos Estudantes ficou ao lado do presidente João Goulart na greve geral de 1962 e lutou pela reforma educacional. Mesmo com a Ditadura Militar instaurada em 1964, os estudantes continuam, na ilegalidade, reivindicando por uma sociedade mais justa e igualitária.

A decretação do Ato Institucional Número 5 (AI-5) fez calar os movimentos estudantis até o final dos anos 70, quando os jovens voltaram às ruas para lutar pela anistia e pela instauração do regime democrático.

Em 1985 a UNE retorna à legalidade e os grêmios e centros estudantis ressurgem. Mas o último e maior movimento estudantil do país foi a Manifestação dos Caras Pintadas, ocorrida no ano de 1992. Nesse ato, os estudantes manifestaram-se a favor do impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello, pintaram o rosto e se posicionaram contra a corrupção na política.

Novos rumos

O movimento estudantil brasileiro acordou neste ano. A invasão da reitoria da Universidade de Brasília (UnB), no dia 15 de abril, resultou na renúncia do então reitor Timothy Mullholand, suspeito de usar indevidamente os recursos públicos da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) para equipar o apartamento funcional em que morava.

Mas ainda é muito pouco. Segundo o jornal Folha de São Paulo as pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e pelo Instituto Pólis com 8.000 jovens de 15 a 24 anos, demonstrou que apenas 3% dos estudantes participam de associações estudantis.

Para que o movimento estudantil continue sendo um local representativo para os jovens estudantes se faz necessário um maior engajamento de todos. Os ideais precisam sair do mundinho isolado de cada um e se expandir, unindo-se a tantos outros por uma causa maior. Espaços como o D.A, DCE e Grêmios Estudantis devem ser melhor aproveitados.

Por comodidade, falta de tempo ou medo, os jovens ficam acuados e acabam tornando-se pessoas passivas e sem opinião sobre os acontecimentos do cenário político nacional. Está mais do que na hora do movimento estudantil tomar novos rumos. Caso contrário, tudo vai continuar acabando em pizza.

A jornalista Rosane de Oliveira, 47 anos, nasceu em Campos Borges, no Rio Grande do Sul. Formou-se em jornalismo em 1982, na PUCRS, e atualmente trabalha em diversas mídias do Grupo RBS. Além de ser editora de política, é culunista do jornal Zero Hora, apresentadora do programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, e comentarista da TVCOM.

Antes de ingressar na RBS essa jornalista multimidiática trabalhou nas rádios Guaíba e Pampa como redatora e repórter. Rosane também atuou no jornal Correio do Povo, onde exercia a função de editora de Política e de Economia.

Procurando especialização, a jornalista fez, em 1999, o Master em Jornalismo para Editores na Universidade de Navarra, no Centro de Extensão Universitária de São Paulo.