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Raquel Correia ajuda padastro na oficina de bicicletas

Raquel Correia ajuda padastro na oficina de bicicletas

Último sábado de agosto. Clima de verão em pleno inverno. Um grupo composto por quarenta alunos de jornalismo da Unisinos, câmeras fotográficas, filmadoras, blocos e canetas. Foi com este cenário que partimos para a Vila Brás, localizada em São Leopoldo.

No caminho, discutimos ideias de pautas, mas, na realidade, não sabíamos se elas conseguiriam ser apuradas. Quinze minutos depois chegamos à avenida principal. Um a um descemos a passos lentos do ônibus e, timidamente, começamos a conhecer a Vila.

Organizamos-nos em trio (Daniela, Juliana e Rodnei) e fomos atrás das histórias escondidas naquelas centenas de casas e comércios.  A primeira entrevista que fizemos foi em uma oficina de bicicletas. Raquel Correia, 10 anos, e seu padastro, Moacir de Almeida, 49 anos, que estavam no local, foram muito receptivos.

Através deste primeiro contato entendi a empolgação do Prof. Demétrio ao falar da Vila Brás. E assim seguiu durante toda a manhã. As três horas que ficamos na Vila foram poucas, pois quanto mais escutávamos os moradores, mais queríamos conhecê-los.

Fê, o brilho da Brás

Fê, o brilho da Brás

Quando estávamos voltando a o ônibus, paramos para conversar com um vendedor ambulante e mais que rápido ele disse “Já me entrevistaram e até tiraram foto. Estou ficando famoso”.  Alguns metros a frente entramos em uma locadora e ouvimos a mesma coisa do atendente “Já é o terceiro grupo da Unisinos que vem aqui hoje. Estou me sentindo uma estrela.”

Este atendente tem razão, ele é mesmo uma estrela, assim como os 14 mil habitantes da Brás, e o Jornal Enfoque o único meio de comunicação que faz estas pessoas se sentirem valorizadas.

As conversas que tivemos nesta manhã com os moradores estão interligadas entre si, pois falam de batalha e esperança de uma vida melhor. Muita esperança. A Fernanda, 2 anos, resume o que vimos na Vila. Mesmo com as dificuldades enfrentadas diariamente estas pessoas têm um brilho único no olhar. O sorriso que irradia na face da Fê é o retrato das estrelas da Brás. É deste brilho que o bom jornalismo é feito.

Aos 85 anos, 62 dedicados aos filhos, Ana Pilatti é a primeira entrevistada da seção Perfil Especial do Dia das Mães

Natural da zona rural de Canela, do distrito de Banhado Grande, Ana morava junto com os pais Ângelo e Rosália Carniel, descendentes de italianos, e com os 12 irmãos. Aos seis anos foi para a escola, mas três anos depois teve que deixar os cadernos de lado para ajudar a família. Casou aos 21anos com Tealmo Pilatti e foram morar no distrito de Carol, também na zona rural do município de Canela, onde tiveram dez filhos, cinco homens e cinco mulheres. No interior, o único modo de sobrevivência era baseado na agricultura e, por isso, a vida do casal se resumia a trabalhar e cuidar dos filhos.

Todos os dias, Ana precisava acordar cedo para tirar leite das vacas e tratar os animais (vacas, bois, galinhas e porcos). Quando fazia sol, ia para a roça com o marido e os filhos. Quando chovia, o destino da família era o galpão, onde descascavam milho e faziam vassouras de palha. Se uma das crianças ficava doente, Ana recorria aos chás e remédios caseiros. Se o caso fosse grave, andava 10 km para chegar até o médio mais próximo.

Durante as dez gestações, nunca teve acompanhamento médico e dos dez partos, nove foram feitos em casa pela parteira Luiza Schuantz. Ana veio morar em Novo Hamburgo no bairro Vila Mentz em 1975, devido aos problemas de saúde de Tealmo. Hoje, ela reside no bairro Rio Branco com as filhas gêmeas.

Mesmo tendo perdido dois filhos e o marido, nunca encontramos a vó Ana, como é conhecida por todos, desanimada. Essa senhora baixinha de cabelos brancos possui uma alegria de viver inigualável. Ana é um grande exemplo de vida. Todas as dificuldades pelas quais passou foram um estímulo a mais para ela nunca desistir. Com o sorriso sempre estampado no rosto, conquista a todos com o seu jeito calmo e amoroso. Os oito netos e o bisneto são os seus xodós.

Para passar o tempo, faz crochê e lê jornais e revistas. Às vezes, quando não está conversando com alguém, começa a cantar, animando ainda mais o ambiente. Na sexta-feira, dia 25, a estudante de jornalismo Daniela Cristina Machado foi entrevistar Ana na sua casa. Conheça um pouco mais da vida e da história dessa mãe mais do que experiente.

novohamburgo.org / Daniela – Como era a rotina da senhora lá em Canela?

Ana Pilatti – Eu acordava às 5 horas da manhã e fazia fogo no fogão a lenha. Enquanto o fogão esquentava, ia tirar o leite das vacas e tratar os animais. Voltava pra casa, fazia o café e a arrumava a merenda para as crianças levarem a escola. Quando não tinha pão, eu fritava bolinho pra elas comerem no café da manhã. Era assim, se a gente tinha uma coisa, faltava outra. Sempre tinha que inventar, dar um jeito, mas nunca passamos fome lá em casa. Se tinha pouca coisa, a gente dividia igual para cada um. Eu e meu marido, com a ajuda dos filhos mais velhos, passávamos o dia inteiro na roça plantando. A gente conseguia vender frutas, vassouras, galinhas e ovos. Com esse dinheiro nós comprávamos os mantimentos que não conseguíamos produzir em casa, como açúcar, sal e café. Eu também fazia schimier pra vender e costurava para os vizinhos. Aprendi a costurar com Angelina, uma de minhas irmãs. Depois que estava bem treinada, ela me deu uma máquina de pedal de presente. Como naquela época não tinha energia elétrica, costurava a luz de velas, com as crianças na minha volta.

novogamburgo.org /Daniela – Onde a senhora conheceu o seu marido? Como foi o dia do seu casamento?

Ana Pilatti – Eu conheci o Tealmo em uma festa da Igreja, no Banhado Grande. A gente ficou conversando durante a festa. Eu tinha 21 anos e ele 29 quando a gente se casou. Nosso primeiro beijo foi nesse dia. Eu estava muito feliz, porque estava casando com o homem que eu escolhi e que gostava muito. Até hoje me lembro do meu vestido de noiva ele era bem volumoso. O Tealmo era muito trabalhador e companheiro, a gente sempre foi mais amigos do que marido e mulher. Nós gostávamos muito de conversar. Faz 13 anos que Deus levou ele de mim. Tenho muitas saudades dele.


novohamburgo.org/Daniela – Conte como foi a sua primeira gravidez.

Ana Pilatti – Eu tinha por volta de 23 anos. Quando descobri que estava grávida, fiquei com um pouco de medo, porque não tinha muita prática em cuidar de crianças. Nasceu um lindo menino e decidimos colocar o nome dele de Ivo. Naquela época, o hospital ficava muito longe de nossa casa. Por isso, os partos das pessoas que moravam no interior eram feitos em casa por uma parteira

novohamburgo.org/Daniela – Ao todo, a senhora teve dez filhos, sendo que o último parto foi de gêmeos. A senhora sabia que estava grávida de duas crianças ao mesmo tempo?

Ana Pilatti – Eu não sabia. A gente não ia ao médico, só quando estava doente. Nessa minha última gestação estranhei o tamanho da barriga, que estava muito maior do que normalmente ficava. Nas duas semanas que antecederam o parto eu não conseguia mais deitar na cama, dormia sentada na cadeira, porque a barriga estava muito pesada. Quando as gêmeas nasceram fiquei muito feliz ao ver aquelas duas lindas meninas. Como eu sabia costurar, fazia roupas iguais para elas usarem. As pessoas que não eram de casa nunca sabiam que era a Maria da Graça e a Maria de Fátima. Elas se vestiram iguais até a adolescência, depois cada uma usava aquilo que mais gostava, mas até hoje tem gente que confunde as duas.

novohamburgo.org/Daniela – O seu marido ajudava a senhora a cuidar das crianças?

Ana Pilatti – Ele ajudava sim, quando não estava trabalhando na roça brincava com as crianças. Me lembro que ele comprava alguns metros de tecido e fazia as fraldas de pano para eu colocar nos bebês.

novohamburgo.org/Daniela – A senhora só foi três anos na escola. Mesmo assim, incentivou os seus filhos a estudarem?

Ana Pilatti – Eu fui até a 3ª série na escola, porque precisava ajudar os meus pais na lida da roça, mas eu gostava muito de estudar. A pessoa que não tem estudo é uma inútil, porque dificilmente ele vai conseguir emprego. Sempre incentivei os meus filhos a estudarem, queria que eles fossem alguém na vida. Hoje todos trabalham e tem a sua casinha, as suas coisas. Tenho muito orgulho de todos eles.

novohamburgo.org/Daniela – Hoje em dia é mais fácil criar um filho?

Ana Pilatti – Não sei se é mais fácil, porque naquela época as coisas eram meio precárias. Hoje as pessoas tem tudo, mas elas não se respeitam mais. Cada vez o mundo está pior. A violência está de mais, as pessoas se matam por coisas bobas. Antigamente os filhos respeitavam mais os pais, não precisava nem falar. O meu marido só olhava pras crianças quando elas estavam fazendo alguma arte e elas já corriam para o quarto. Hoje as crianças respondem pros pais, tem umas que até batem neles. Os valores mudaram muito. As pessoas precisam ter Deus no coração, só assim vamos conseguir alcançar a paz.

novohamburgo.org/Daniela – Qual o sentimento que a senhora tem pelos seus filhos?

Ana Pilatti – Amor, amizade, um sentimento bem louco. Tenho saudade de todos eles e quero que fiquem sempre perto de mim. Mas eu sabia que quando crescessem cada um seguiria o seu próprio caminho. Tenho dois filhos que moram em Canela e uma em Dois Irmãos, os outros moram aqui em Novo Hamburgo. Sempre que podem eles vem me visitar. Quando não conseguem estar comigo, me ligam pra matar a saudade.

novohamburgo.org/Daniela – Dois filhos da senhora faleceram. Como conseguiu superar essas perdas?

Ana Pilatti – O Luiz Paulo morreu no dia do parto, com o cordão umbilical enrolado no pescoço e o Ivo morreu com 38 anos, de apendicite. É muito difícil perder um filho, é um sentimento de dor sem fim. Quando o Ivo morreu eu chorava sem parar durante vários dias, mas vi que tinha outros oito filhos que precisavam de mim. Isso me deu forças pra seguir em frente.

novohamburgo.org/Daniela – Em sua opinião, o que significa ser mãe?

Ana Pilatti – A mãe é o pilar da família, ela deve ser um exemplo para os filhos. Sem ela a família fica perdida. Tudo que eu aprendi com a minha mãe tentei passar para os meus filhos e hoje ele são bons pais e boas mães. A mãe deve ensinar os seus filhos a serem honestos, trabalhadores e não fazer o mal para as outras pessoas.

novohamburgo.org/Daniela – O que uma mulher deve fazer para ser uma boa mãe?

Ana Pilatti – Dar muito amor, carinho e educação para seus filhos. Grande parte do que somos é construído dentro de casa. Os pais devem passar valores para os seus filhos. Ter paciência também é fundamental.

novohamburgo.org/Daniela – Tem algum sonho que a senhora ainda não conseguiu realizar?

Ana Pilatti – Não, tudo que eu sonhava eu realizei. Queria ter uma casa, uma família e saúde pra tocar a vida. Tudo isso eu consegui.

Entrevista publicada no site Novohamburgo.org