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Aos 85 anos, 62 dedicados aos filhos, Ana Pilatti é a primeira entrevistada da seção Perfil Especial do Dia das Mães

Natural da zona rural de Canela, do distrito de Banhado Grande, Ana morava junto com os pais Ângelo e Rosália Carniel, descendentes de italianos, e com os 12 irmãos. Aos seis anos foi para a escola, mas três anos depois teve que deixar os cadernos de lado para ajudar a família. Casou aos 21anos com Tealmo Pilatti e foram morar no distrito de Carol, também na zona rural do município de Canela, onde tiveram dez filhos, cinco homens e cinco mulheres. No interior, o único modo de sobrevivência era baseado na agricultura e, por isso, a vida do casal se resumia a trabalhar e cuidar dos filhos.

Todos os dias, Ana precisava acordar cedo para tirar leite das vacas e tratar os animais (vacas, bois, galinhas e porcos). Quando fazia sol, ia para a roça com o marido e os filhos. Quando chovia, o destino da família era o galpão, onde descascavam milho e faziam vassouras de palha. Se uma das crianças ficava doente, Ana recorria aos chás e remédios caseiros. Se o caso fosse grave, andava 10 km para chegar até o médio mais próximo.

Durante as dez gestações, nunca teve acompanhamento médico e dos dez partos, nove foram feitos em casa pela parteira Luiza Schuantz. Ana veio morar em Novo Hamburgo no bairro Vila Mentz em 1975, devido aos problemas de saúde de Tealmo. Hoje, ela reside no bairro Rio Branco com as filhas gêmeas.

Mesmo tendo perdido dois filhos e o marido, nunca encontramos a vó Ana, como é conhecida por todos, desanimada. Essa senhora baixinha de cabelos brancos possui uma alegria de viver inigualável. Ana é um grande exemplo de vida. Todas as dificuldades pelas quais passou foram um estímulo a mais para ela nunca desistir. Com o sorriso sempre estampado no rosto, conquista a todos com o seu jeito calmo e amoroso. Os oito netos e o bisneto são os seus xodós.

Para passar o tempo, faz crochê e lê jornais e revistas. Às vezes, quando não está conversando com alguém, começa a cantar, animando ainda mais o ambiente. Na sexta-feira, dia 25, a estudante de jornalismo Daniela Cristina Machado foi entrevistar Ana na sua casa. Conheça um pouco mais da vida e da história dessa mãe mais do que experiente.

novohamburgo.org / Daniela – Como era a rotina da senhora lá em Canela?

Ana Pilatti – Eu acordava às 5 horas da manhã e fazia fogo no fogão a lenha. Enquanto o fogão esquentava, ia tirar o leite das vacas e tratar os animais. Voltava pra casa, fazia o café e a arrumava a merenda para as crianças levarem a escola. Quando não tinha pão, eu fritava bolinho pra elas comerem no café da manhã. Era assim, se a gente tinha uma coisa, faltava outra. Sempre tinha que inventar, dar um jeito, mas nunca passamos fome lá em casa. Se tinha pouca coisa, a gente dividia igual para cada um. Eu e meu marido, com a ajuda dos filhos mais velhos, passávamos o dia inteiro na roça plantando. A gente conseguia vender frutas, vassouras, galinhas e ovos. Com esse dinheiro nós comprávamos os mantimentos que não conseguíamos produzir em casa, como açúcar, sal e café. Eu também fazia schimier pra vender e costurava para os vizinhos. Aprendi a costurar com Angelina, uma de minhas irmãs. Depois que estava bem treinada, ela me deu uma máquina de pedal de presente. Como naquela época não tinha energia elétrica, costurava a luz de velas, com as crianças na minha volta.

novogamburgo.org /Daniela – Onde a senhora conheceu o seu marido? Como foi o dia do seu casamento?

Ana Pilatti – Eu conheci o Tealmo em uma festa da Igreja, no Banhado Grande. A gente ficou conversando durante a festa. Eu tinha 21 anos e ele 29 quando a gente se casou. Nosso primeiro beijo foi nesse dia. Eu estava muito feliz, porque estava casando com o homem que eu escolhi e que gostava muito. Até hoje me lembro do meu vestido de noiva ele era bem volumoso. O Tealmo era muito trabalhador e companheiro, a gente sempre foi mais amigos do que marido e mulher. Nós gostávamos muito de conversar. Faz 13 anos que Deus levou ele de mim. Tenho muitas saudades dele.


novohamburgo.org/Daniela – Conte como foi a sua primeira gravidez.

Ana Pilatti – Eu tinha por volta de 23 anos. Quando descobri que estava grávida, fiquei com um pouco de medo, porque não tinha muita prática em cuidar de crianças. Nasceu um lindo menino e decidimos colocar o nome dele de Ivo. Naquela época, o hospital ficava muito longe de nossa casa. Por isso, os partos das pessoas que moravam no interior eram feitos em casa por uma parteira

novohamburgo.org/Daniela – Ao todo, a senhora teve dez filhos, sendo que o último parto foi de gêmeos. A senhora sabia que estava grávida de duas crianças ao mesmo tempo?

Ana Pilatti – Eu não sabia. A gente não ia ao médico, só quando estava doente. Nessa minha última gestação estranhei o tamanho da barriga, que estava muito maior do que normalmente ficava. Nas duas semanas que antecederam o parto eu não conseguia mais deitar na cama, dormia sentada na cadeira, porque a barriga estava muito pesada. Quando as gêmeas nasceram fiquei muito feliz ao ver aquelas duas lindas meninas. Como eu sabia costurar, fazia roupas iguais para elas usarem. As pessoas que não eram de casa nunca sabiam que era a Maria da Graça e a Maria de Fátima. Elas se vestiram iguais até a adolescência, depois cada uma usava aquilo que mais gostava, mas até hoje tem gente que confunde as duas.

novohamburgo.org/Daniela – O seu marido ajudava a senhora a cuidar das crianças?

Ana Pilatti – Ele ajudava sim, quando não estava trabalhando na roça brincava com as crianças. Me lembro que ele comprava alguns metros de tecido e fazia as fraldas de pano para eu colocar nos bebês.

novohamburgo.org/Daniela – A senhora só foi três anos na escola. Mesmo assim, incentivou os seus filhos a estudarem?

Ana Pilatti – Eu fui até a 3ª série na escola, porque precisava ajudar os meus pais na lida da roça, mas eu gostava muito de estudar. A pessoa que não tem estudo é uma inútil, porque dificilmente ele vai conseguir emprego. Sempre incentivei os meus filhos a estudarem, queria que eles fossem alguém na vida. Hoje todos trabalham e tem a sua casinha, as suas coisas. Tenho muito orgulho de todos eles.

novohamburgo.org/Daniela – Hoje em dia é mais fácil criar um filho?

Ana Pilatti – Não sei se é mais fácil, porque naquela época as coisas eram meio precárias. Hoje as pessoas tem tudo, mas elas não se respeitam mais. Cada vez o mundo está pior. A violência está de mais, as pessoas se matam por coisas bobas. Antigamente os filhos respeitavam mais os pais, não precisava nem falar. O meu marido só olhava pras crianças quando elas estavam fazendo alguma arte e elas já corriam para o quarto. Hoje as crianças respondem pros pais, tem umas que até batem neles. Os valores mudaram muito. As pessoas precisam ter Deus no coração, só assim vamos conseguir alcançar a paz.

novohamburgo.org/Daniela – Qual o sentimento que a senhora tem pelos seus filhos?

Ana Pilatti – Amor, amizade, um sentimento bem louco. Tenho saudade de todos eles e quero que fiquem sempre perto de mim. Mas eu sabia que quando crescessem cada um seguiria o seu próprio caminho. Tenho dois filhos que moram em Canela e uma em Dois Irmãos, os outros moram aqui em Novo Hamburgo. Sempre que podem eles vem me visitar. Quando não conseguem estar comigo, me ligam pra matar a saudade.

novohamburgo.org/Daniela – Dois filhos da senhora faleceram. Como conseguiu superar essas perdas?

Ana Pilatti – O Luiz Paulo morreu no dia do parto, com o cordão umbilical enrolado no pescoço e o Ivo morreu com 38 anos, de apendicite. É muito difícil perder um filho, é um sentimento de dor sem fim. Quando o Ivo morreu eu chorava sem parar durante vários dias, mas vi que tinha outros oito filhos que precisavam de mim. Isso me deu forças pra seguir em frente.

novohamburgo.org/Daniela – Em sua opinião, o que significa ser mãe?

Ana Pilatti – A mãe é o pilar da família, ela deve ser um exemplo para os filhos. Sem ela a família fica perdida. Tudo que eu aprendi com a minha mãe tentei passar para os meus filhos e hoje ele são bons pais e boas mães. A mãe deve ensinar os seus filhos a serem honestos, trabalhadores e não fazer o mal para as outras pessoas.

novohamburgo.org/Daniela – O que uma mulher deve fazer para ser uma boa mãe?

Ana Pilatti – Dar muito amor, carinho e educação para seus filhos. Grande parte do que somos é construído dentro de casa. Os pais devem passar valores para os seus filhos. Ter paciência também é fundamental.

novohamburgo.org/Daniela – Tem algum sonho que a senhora ainda não conseguiu realizar?

Ana Pilatti – Não, tudo que eu sonhava eu realizei. Queria ter uma casa, uma família e saúde pra tocar a vida. Tudo isso eu consegui.

Entrevista publicada no site Novohamburgo.org

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1179526197_violencia21.jpgAtualmente falamos sobre assaltos, estupros, violência contra mulheres e crianças, tortura e morte como se fossem questões banais da vida cotidiana. Ontem tive a certeza disso.

Ao meio-dia peguei um ônibus que faz a linha Novo Hamburgo/São Leopoldo para me dirigir ao trabalho e, como de costume, sentei no penúltimo banco. A sonolência clássica que nos domina após o almoço estava começando a tomar conta do meu corpo. Recostei-me na janela e já estava preparava para tirar aquela pestana, quando um homem jovem e bem arrumado adentrou no transporte coletivo no bairro Boa Saúde, Novo Hamburgo.

A princípio parecia um passageiro como outro qualquer, menos por um motivo: a faca que segurava na mão direita. Em questão de segundos aquela arma pontiaguda apontava em direção ao cobrador. Guiado pelos seus instintos, ele reagiu e travou uma luta pela com o assaltante.

Num primeiro momento coloquei a mão dentro de minha bolsa para retirar o celular e o pen drive e os esconder debaixo do banco. Mas o pânico foi tão grande que acabou paralisando os meus movimentos, a única coisa que se mexia no meu corpo num ritmo alucinante era o coração. Uma mulher que estava sentada próxima ao cobrador levantou-se na tentativa de sair pela porta, contudo ela estava fechada e o ônibus seguia em movimento. A mulher acabou por desistir da idéia, sentou-se ao meu lado e agarrou-se no meu braço.

Enquanto isso, o cobrador conseguiu tirar a faca da mão do criminoso, mandou o ônibus parar e o expulsou da condução. Aquele homem possuído pela raiva de não ter conseguido roubar alguns trocados, ameaçou voltar com um revólver.

A viagem seguiu normalmente e sem eu ver sequer uma viatura da polícia. A mulher sentada ao meu lado tremia. Minhas pernas estavam moles e minha boca aberta. Perguntei ao cobrador se ele estava bem e, aparentemente, parecia estar calmo. Na hora do desembarque o alertei para nunca mais reagir, pois ele poderia ter se ferido caso não tivesse conseguido dominar o bandido. O cobrador pareceu não aceitar a minha opinião e disse que já havia sido assaltado outras vezes.

Quando perguntei se iríamos registrar a ocorrência, a resposta foi “não”. O vendedor de vassouras que estava sentado próximo a mim, garantiu que o bandido é conhecido dos moradores do bairro, pois já assaltou vários estabelecimentos comerciais.

Passei o dia pensando naquele assaltante jovem e bem aprumado. Hoje em dia o bandido não é mais um maltrapilho que usa roupas rasgadas e um boné sujo. Agora ele usa terno ou roupas de marca e gel no cabelo.

Com certeza aquele homem estava pronto para invadir outro ônibus, uma casa ou um comércio. Os seus assaltos, assim como os de outros criminosos, tornaram-se corriqueiros e as pessoas não acreditam mais na polícia. Pra que denunciar? Só se gasta tempo e ainda se corre o risco do bandido voltar para se vingar.

O pior de tudo não é as pessoas se acostumarem com os assaltos, mas é a banalização de nossas vidas. Quando não denunciamos esses criminosos estamos dando a eles a chance de acabarem com vidas inocentes. Alguém ainda lembra do menino João Hélio Fernandes? Eu lembro e não quero que isso aconteça com os meus parentes e amigos.

Meu avô conta que antigamente não se colocava cadeado nas portas, mas apenas uma tramela para os animais não entrarem dentro de casa. Hoje erguemos muros, colocamos grades, cerca elétrica, cães de guarda e pagamos segurança particular. Além disso, repassamos diariamente e-mails aos nossos conhecidos com dicas de segurança e alertas para não caiam nos inúmeros golpes espalhados por aí. Cadê a melhoria da segurança, a contratação de novos policiais e a compra de novas viaturas prometidas a cada eleição pelos candidatos a presidente, deputado, governador, prefeito e vereador?

Quero deixar registrado aqui as minhas dicas. Nunca reaja e sempre denuncie aqueles que estão praticando atos ilícitos. Comece a prestar mais atenção antes de sair de casa e do trabalho, observe bem as pessoas e os lugares por onde passa, ande sempre em lugares movimentados, não faça à mesma rota todos os dias e nunca saia sem alguns trocados, várias pessoas já morreram por não terem nada de valor. Precisamos dar mais valor a nossa vida, o amanhã pode não chegar, muitas vezes, pela falta de segurança pública.

Texto publicado no site Portal3 e no site Novohamburgo.org