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O marido, o filho mais velho e o futuro neto de Agnes estão na China

Maria Agnes Graeff Machado, 51 anos, é natural de Dois Irmãos. Quando ela ainda era bebê, os pais vieram morar no bairro Vila Nova, em Novo Hamburgo, onde abriram um mini-mercado e tiveram mais quatro filhos. Em outubro de 1975 casou-se com João Luiz Machado, aos 18 anos, e teve o primeiro filho, o qual chamou de Fabiano. Dois anos depois, voltou a estudar, terminou o Ensino Médio e cursou Magistério. Quando o filho estava com seis anos começou a pedir um irmãozinho e, em 1983, Agnes deu a luz a Fábio e, quatro anos mais tarde, a Fernanda.

Como o marido viajava a cada 15 dias há trabalho, precisou deixar de lecionar para ficar em casa cuidando dos filhos, até que todos tivessem autonomia de ir e vir da escola. Voltou a trabalhar quando Fernanda estava com nove anos. Nunca deixou de alimentar o sonho de cursar o Ensino Superior. Em 2000 iniciou o curso de Pedagogia na Unisinos e em julho de 2007 se formou. Contudo, só em dezembro recebeu o presente de formatura: ficou sabendo que seria avó.

A vida da mãe Agnes se parece como tantas outras histórias, exceto por três grandes detalhes: o marido reside há cinco anos em Guangzhou, na China, e, há dois anos, o Fabiano se mudou para Pequim com a esposa, onde decidiram ter um filho. Mesmo com os três morando do outro lado do mundo, ela sempre está sorrindo. A mãe dedicada e preocupada com a educação dos filhos, sente-se muito orgulhosa da família que constituiu.

Na sexta-feira, dia 03, a estudante de jornalismo Daniela Cristina Machado foi entrevistar Agnes na sua casa. Conheça um pouco mais da sua história de vida e saiba como essa mãe dribla a saudade do marido, do filho mais velho, da nora e do futuro neto.

novohamburgo.org / Daniela – Conte como você conheceu seu marido e como foi a sua primeira gravidez.

Agnes – Eu conheci o João no “Colégio Pasqualini”. Começamos a namorar em um passeio que fizemos com a turma da escola, na época eu tinha 16 anos. Quando completamos um ano de namoro, ele me pediu em noivado e já iniciamos o enxoval. Casei-me com 18 anos e fomos morar ao lado do armazém do meu pai. Aos 19 anos ganhei meu primeiro filho e tive que parar de estudar, só faltava um ano para me formar no Ensino Médio. Compramos um terreno no bairro Canudos e nos mudamos para lá.

novohamburgo.org / Daniela – Você voltou a estudar depois disso?

Agnes – Sim, quando o Fabiano completou dois anos eu voltei a estudar. Deixava-o com a minha sogra no turno da tarde e ia para o “Colégio Santa Catarina” concluir o Ensino Médio e fazer o curso de Magistério. Comecei a dar aula em 1981 na “Escola Estadual João Ribeiro”, no bairro Canudos, para uma classe de 32 alunos. No final deste mesmo ano, fiz um concurso da Prefeitura e passei a lecionar na Rede Municipal de Ensino.

novohamburgo.org / Daniela – Depois disso você engravidou de mais um menino. O Fabiano não sentiu ciúmes?

Agnes – Não, muito pelo contrário. O Fabiano tinha seis anos, já estava na pré-escola e via que todos seus coleguinhas tinham irmãos. Então, ele seguido pedia um irmãozinho. Lembro-me que em agosto, no Dia dos Pais, ele tinha que levar alguns objetos que o pai utilizava no trabalho e, como o João sempre trabalhou na área coureiro-calçadista, deu para ele uma cepa de madeira. Quando o Fabiano chegou em casa naquela noite, a colocou do lado de sua cama e disse que aquilo ali era o seu irmão. No mês de dezembro daquele mesmo ano descobri que estava grávida e, em agosto de 1983, tive o Fábio. O Fabiano ficou muito feliz com a chegada do irmão, não me lembro de ter visto ele com ciúmes. Os dois sempre brincavam e, quando o Fábio já estava com uns cinco anos, o Fabiano o levava junto no Centro para alugarem fitas de vídeo-game.

novohamburgo.org / Daniela – Como foi à chegada de uma menina na família Machado?

Agnes – Quando eu engravidei pela terceira vez todos da família diziam que eu tinha que ter uma menina, mas no fundo achava que seria mais um menino, até já sabia o nome que colocaria nele. Todas as roupinhas que comprei eram cores neutras, como branco, amarelo e verde, só havia comprado um tip-top rosa. Porém, na noite anterior ao parto, uma de minhas cunhadas sugeriu que eu colocasse o nome de Fernanda caso o bebê fosse menina. Na mala que preparei para levar ao hospital, coloquei, bem no fundo, um tope rosa que fiz com uma fita mimosa. No dia seguinte, antes de entrar na sala de parto, falei para a minha sogra que, se caso nascesse uma menina, era para ela pegar o tope que estava no fundo da sacola e prender no cabelo do bebê. A Fernanda nasceu e foi àquela festa. A minha sogra foi correndo pegar o tope.

novohamburgo.org / Daniela – Você, como professora, deve ter sempre incentivado seus filhos a estudarem.

Agnes Eu sempre gostei muito de estudar. Meu marido só conseguiu terminar o segundo grau e eu, no final de 2007, me formei em Pedagogia na Unisinos. Nós sempre demos prioridade para a educação de nossos filhos. No turno contrário as aulas, todos praticavam algum esporte e faziam inglês. Sempre acreditamos que a língua estrangeira traria boas oportunidades para eles. Em casa, os três tinham que fazer o tema antes de brincar, isso era indispensável. O meu marido trabalhava muito e não podia estar tão presente quanto eu, mas ele sempre incentivava as crianças a estudarem. O Fabiano se formou em Comércio Exterior na Unisinos, o Fábio se forma no início de 2009 em Publicidade e Propaganda, também na Unisinos, e a Fernanda está cursando Designer na Feevale.

novohamburgo.org / Daniela – Então, vocês achavam importante os filhos, mesmo ainda sendo pequenos, estudarem um outro idioma?

Agnes – Com certeza. O Fabiano conheceu a esposa no segundo grau e os dois faziam curso de inglês. Desde que se formaram no Ensino Médio, começaram a trabalhar e economizaram para viajar aos Estados Unidos. Ficaram dois meses lá, onde fizeram um curso de inglês. Quando voltaram, conseguiram bons empregos. Depois o Fabiano começou a trabalhar na Dell e, em 2006, a empresa o transferiu para uma de suas filiais na China.

novohamburgo.org / Daniela – No final do ano passado você descobriu que seria avó. Como você recebeu essa notícia e como lida com a distância?

Agnes – Quando soube que seria avó foi uma emoção indescritível. Na ecografia deu 85% de chances de ser um menino. O Fabiano e a Lisandra até já escolheram nome: Guilherme. O bebê só nasce em julho, mas já tem até perfil no Orkut e todas as “ecos” que a minha nora faz ela posta no YouTube, além de nos enviar diversas fotos por e-mail. Nos finais de semana falo com eles pelo MSN. Eu queria muito que tivessem um filho, porque já estão preparados para isso. As pessoas acham que é fácil ir morar fora do país, mas as coisas são bem mais complicadas do que imaginamos. No primeiro mês que o Fabiano e a Lisandra estavam lá tiveram vontade de vir embora, mas agora eles não têm previsão de quando vão voltar, porque gostam de mais da China, a qualidade de vida é muito superior a nossa. A distância é ruim, mas não sofro com isso, porque fico feliz em saber que eles estão bem. Nas datas especiais a saudade aumenta ainda mais, mas sempre damos um jeito de manter contato.

novohamburgo.org / Daniela – Como você mantém a sua relação com o eu marido

Agnes – Todas as noites converso com o João pelo MSN ou pelo telefone. Com o tempo aprendi a lidar com a saudade. O ser humano se adapta rápido as situações que lhes são impostas. O namorado da minha filha mora na Itália e sei que daqui algum tempo ela também vai ir embora. O meu outro filho, o Fábio, está com planos de, futuramente, trabalhar fora do país. Vamos esperar para ver o que acontece.

novohamburgo.org / Daniela – Em sua opinião, o que significa ser mãe e como uma mãe deve agir como seus filhos?

Agnes – Nenhuma mãe é perfeita. A gente sempre acha que poderia ter feitos algumas coisas diferentes. O que importa é ser coerente como o que se diz e com o que se faz. As ações e as palavras são de extrema importância. A mãe sempre deve incentivar os seus filhos a serem alguém na vida e valorizar as coisas que eles fazem. Cada filho tem as suas qualidades e os seus defeitos. Além disso, é claro, a mãe deve dar muito amor, carinho e atenção a eles.

novohamburgo.org / Daniela – O que você sente pelos seus filhos?

Agnes – Sinto muito orgulho de todos eles. Me emociono ao falar disso. E sei que eles ainda vão me dar muitas alegrias.

Entrevista publicada no site Novohamburgo.org

Aos 85 anos, 62 dedicados aos filhos, Ana Pilatti é a primeira entrevistada da seção Perfil Especial do Dia das Mães

Natural da zona rural de Canela, do distrito de Banhado Grande, Ana morava junto com os pais Ângelo e Rosália Carniel, descendentes de italianos, e com os 12 irmãos. Aos seis anos foi para a escola, mas três anos depois teve que deixar os cadernos de lado para ajudar a família. Casou aos 21anos com Tealmo Pilatti e foram morar no distrito de Carol, também na zona rural do município de Canela, onde tiveram dez filhos, cinco homens e cinco mulheres. No interior, o único modo de sobrevivência era baseado na agricultura e, por isso, a vida do casal se resumia a trabalhar e cuidar dos filhos.

Todos os dias, Ana precisava acordar cedo para tirar leite das vacas e tratar os animais (vacas, bois, galinhas e porcos). Quando fazia sol, ia para a roça com o marido e os filhos. Quando chovia, o destino da família era o galpão, onde descascavam milho e faziam vassouras de palha. Se uma das crianças ficava doente, Ana recorria aos chás e remédios caseiros. Se o caso fosse grave, andava 10 km para chegar até o médio mais próximo.

Durante as dez gestações, nunca teve acompanhamento médico e dos dez partos, nove foram feitos em casa pela parteira Luiza Schuantz. Ana veio morar em Novo Hamburgo no bairro Vila Mentz em 1975, devido aos problemas de saúde de Tealmo. Hoje, ela reside no bairro Rio Branco com as filhas gêmeas.

Mesmo tendo perdido dois filhos e o marido, nunca encontramos a vó Ana, como é conhecida por todos, desanimada. Essa senhora baixinha de cabelos brancos possui uma alegria de viver inigualável. Ana é um grande exemplo de vida. Todas as dificuldades pelas quais passou foram um estímulo a mais para ela nunca desistir. Com o sorriso sempre estampado no rosto, conquista a todos com o seu jeito calmo e amoroso. Os oito netos e o bisneto são os seus xodós.

Para passar o tempo, faz crochê e lê jornais e revistas. Às vezes, quando não está conversando com alguém, começa a cantar, animando ainda mais o ambiente. Na sexta-feira, dia 25, a estudante de jornalismo Daniela Cristina Machado foi entrevistar Ana na sua casa. Conheça um pouco mais da vida e da história dessa mãe mais do que experiente.

novohamburgo.org / Daniela – Como era a rotina da senhora lá em Canela?

Ana Pilatti – Eu acordava às 5 horas da manhã e fazia fogo no fogão a lenha. Enquanto o fogão esquentava, ia tirar o leite das vacas e tratar os animais. Voltava pra casa, fazia o café e a arrumava a merenda para as crianças levarem a escola. Quando não tinha pão, eu fritava bolinho pra elas comerem no café da manhã. Era assim, se a gente tinha uma coisa, faltava outra. Sempre tinha que inventar, dar um jeito, mas nunca passamos fome lá em casa. Se tinha pouca coisa, a gente dividia igual para cada um. Eu e meu marido, com a ajuda dos filhos mais velhos, passávamos o dia inteiro na roça plantando. A gente conseguia vender frutas, vassouras, galinhas e ovos. Com esse dinheiro nós comprávamos os mantimentos que não conseguíamos produzir em casa, como açúcar, sal e café. Eu também fazia schimier pra vender e costurava para os vizinhos. Aprendi a costurar com Angelina, uma de minhas irmãs. Depois que estava bem treinada, ela me deu uma máquina de pedal de presente. Como naquela época não tinha energia elétrica, costurava a luz de velas, com as crianças na minha volta.

novogamburgo.org /Daniela – Onde a senhora conheceu o seu marido? Como foi o dia do seu casamento?

Ana Pilatti – Eu conheci o Tealmo em uma festa da Igreja, no Banhado Grande. A gente ficou conversando durante a festa. Eu tinha 21 anos e ele 29 quando a gente se casou. Nosso primeiro beijo foi nesse dia. Eu estava muito feliz, porque estava casando com o homem que eu escolhi e que gostava muito. Até hoje me lembro do meu vestido de noiva ele era bem volumoso. O Tealmo era muito trabalhador e companheiro, a gente sempre foi mais amigos do que marido e mulher. Nós gostávamos muito de conversar. Faz 13 anos que Deus levou ele de mim. Tenho muitas saudades dele.


novohamburgo.org/Daniela – Conte como foi a sua primeira gravidez.

Ana Pilatti – Eu tinha por volta de 23 anos. Quando descobri que estava grávida, fiquei com um pouco de medo, porque não tinha muita prática em cuidar de crianças. Nasceu um lindo menino e decidimos colocar o nome dele de Ivo. Naquela época, o hospital ficava muito longe de nossa casa. Por isso, os partos das pessoas que moravam no interior eram feitos em casa por uma parteira

novohamburgo.org/Daniela – Ao todo, a senhora teve dez filhos, sendo que o último parto foi de gêmeos. A senhora sabia que estava grávida de duas crianças ao mesmo tempo?

Ana Pilatti – Eu não sabia. A gente não ia ao médico, só quando estava doente. Nessa minha última gestação estranhei o tamanho da barriga, que estava muito maior do que normalmente ficava. Nas duas semanas que antecederam o parto eu não conseguia mais deitar na cama, dormia sentada na cadeira, porque a barriga estava muito pesada. Quando as gêmeas nasceram fiquei muito feliz ao ver aquelas duas lindas meninas. Como eu sabia costurar, fazia roupas iguais para elas usarem. As pessoas que não eram de casa nunca sabiam que era a Maria da Graça e a Maria de Fátima. Elas se vestiram iguais até a adolescência, depois cada uma usava aquilo que mais gostava, mas até hoje tem gente que confunde as duas.

novohamburgo.org/Daniela – O seu marido ajudava a senhora a cuidar das crianças?

Ana Pilatti – Ele ajudava sim, quando não estava trabalhando na roça brincava com as crianças. Me lembro que ele comprava alguns metros de tecido e fazia as fraldas de pano para eu colocar nos bebês.

novohamburgo.org/Daniela – A senhora só foi três anos na escola. Mesmo assim, incentivou os seus filhos a estudarem?

Ana Pilatti – Eu fui até a 3ª série na escola, porque precisava ajudar os meus pais na lida da roça, mas eu gostava muito de estudar. A pessoa que não tem estudo é uma inútil, porque dificilmente ele vai conseguir emprego. Sempre incentivei os meus filhos a estudarem, queria que eles fossem alguém na vida. Hoje todos trabalham e tem a sua casinha, as suas coisas. Tenho muito orgulho de todos eles.

novohamburgo.org/Daniela – Hoje em dia é mais fácil criar um filho?

Ana Pilatti – Não sei se é mais fácil, porque naquela época as coisas eram meio precárias. Hoje as pessoas tem tudo, mas elas não se respeitam mais. Cada vez o mundo está pior. A violência está de mais, as pessoas se matam por coisas bobas. Antigamente os filhos respeitavam mais os pais, não precisava nem falar. O meu marido só olhava pras crianças quando elas estavam fazendo alguma arte e elas já corriam para o quarto. Hoje as crianças respondem pros pais, tem umas que até batem neles. Os valores mudaram muito. As pessoas precisam ter Deus no coração, só assim vamos conseguir alcançar a paz.

novohamburgo.org/Daniela – Qual o sentimento que a senhora tem pelos seus filhos?

Ana Pilatti – Amor, amizade, um sentimento bem louco. Tenho saudade de todos eles e quero que fiquem sempre perto de mim. Mas eu sabia que quando crescessem cada um seguiria o seu próprio caminho. Tenho dois filhos que moram em Canela e uma em Dois Irmãos, os outros moram aqui em Novo Hamburgo. Sempre que podem eles vem me visitar. Quando não conseguem estar comigo, me ligam pra matar a saudade.

novohamburgo.org/Daniela – Dois filhos da senhora faleceram. Como conseguiu superar essas perdas?

Ana Pilatti – O Luiz Paulo morreu no dia do parto, com o cordão umbilical enrolado no pescoço e o Ivo morreu com 38 anos, de apendicite. É muito difícil perder um filho, é um sentimento de dor sem fim. Quando o Ivo morreu eu chorava sem parar durante vários dias, mas vi que tinha outros oito filhos que precisavam de mim. Isso me deu forças pra seguir em frente.

novohamburgo.org/Daniela – Em sua opinião, o que significa ser mãe?

Ana Pilatti – A mãe é o pilar da família, ela deve ser um exemplo para os filhos. Sem ela a família fica perdida. Tudo que eu aprendi com a minha mãe tentei passar para os meus filhos e hoje ele são bons pais e boas mães. A mãe deve ensinar os seus filhos a serem honestos, trabalhadores e não fazer o mal para as outras pessoas.

novohamburgo.org/Daniela – O que uma mulher deve fazer para ser uma boa mãe?

Ana Pilatti – Dar muito amor, carinho e educação para seus filhos. Grande parte do que somos é construído dentro de casa. Os pais devem passar valores para os seus filhos. Ter paciência também é fundamental.

novohamburgo.org/Daniela – Tem algum sonho que a senhora ainda não conseguiu realizar?

Ana Pilatti – Não, tudo que eu sonhava eu realizei. Queria ter uma casa, uma família e saúde pra tocar a vida. Tudo isso eu consegui.

Entrevista publicada no site Novohamburgo.org