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Na “Semana Nacional de Luta em Defesa da Formação e Regulamentação Profissional dos Jornalistas”, que aconteceu entre os dias 11 a 17 de agosto, jornalistas de todo o país foram às ruas protestar pela obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Contudo, a maioria das pessoas nem sequer soube que este protesto estava acontecendo, pois a mídia não costuma falar de si própria.

Responsáveis por divulgar as informações locais, nacionais e até mundiais, os veículos de comunicação fazem parte do cotidiano da sociedade desde 1455, quando Gutenberg inventou a prensa dos tipos móveis. De lá até os dias de hoje, a fantástica evolução das técnicas de divulgação e reprodução da notícia proporciona a comunidade o conhecimento quase que instantâneo do acontecimento.

Ilustração: Divulgação
Os jornalistas são os profissionais capacitados a obter, tratar e divulgar os fatos e, para isso, precisam obedecer a diversas técnicas, saberes e ética. Porém, nem todos são capacitados, pois não cursaram uma faculdade, não refletiram sobre as teorias da comunicação e do jornalismo e tampouco sobre a ética da profissão. Sou a favor do diploma e é por este motivo que vou dedicar este texto a mostrar o quanto é necessário ter um bom preparo intelectual, ético e técnico para ser jornalista.

As tarefas diárias de um repórter são muito mais complexas do que se imagina, visto que o grande número de pautas a serem executadas, em um curto espaço de tempo, obedecendo à ideologia do veículo para qual trabalha e, em alguns casos, a escassez de recursos e equipamentos faz o jornalista ficar frente a frente com os princípios do Código de Ética da profissão e decidir segui-los ou não.

Diversos autores debatem esta questão e nos fazem refletir sobre o trabalho destes profissionais. Para discorrer sobre o assunto, busco embasamento no livro Ética no Jornalismo, de autoria de Luciene Tófoli. O primeiro ponto a ser levantado diz respeito os critérios de seleção de uma notícia. Somente são publicados aqueles fatos cujo jornalista julga ser de importância para a sociedade. Isto é o que os profissionais costumam chamar de critérios de noticiabilidade.

O fato, para se tornar uma notícia, deve apresentar um conjunto de critérios de relevância, como o seu conteúdo, a disponibilidade de acesso do repórter ao material e/ou as fontes e ao interesse do público ao qual ela será destinada. Grande parte das redações recebe diariamente uma enorme quantidade de notícias oriundas de agências de informações, o que acaba criando uma agenda previsível das notícias que serão impressas ou irão ao ar. Cabe aos profissionais da área fazer a mediação, selecionando as informações relevantes e verificando a sua credibilidade.

Por vezes, a intimidade de pessoas pública, principalmente atrizes/atores, e cantares/cantoras, é encarada como um uma notícia de interesse da população. E como o público gosta disso! Programas televisivos correm atrás de flagrantes, fofocas e novidades sobre a vida pessoal dos famosos. Revistas dedicam páginas e páginas a fotos posadas ou tiradas sem autorização. Já não sabemos mais o que é público e o que é privado. Ou fingimos não saber. Nos locais públicos gratuitos ou pagos ninguém mais tem direito a sua privacidade.

O artigo 6° do Código de Ética do Jornalismo é claro “É dever do jornalista […] respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão”. Infelizmente é a invasão da vida privada que gera os maiores lucros para a imprensa brasileira. O mercado sempre está sedento por informações que causam polêmica. Com a inovação tecnológica o consumidor virou produtor que divulga através de fotos e vídeos na internet cenas dos famosos. O Youtube é o maio exemplo disto.

Ilustração: Divulgação
Após o advento da internet podemos perceber um fenômeno cada vez maior: o mimetismo midiático. Obrigados a produzir em larga escala e a baixo custo, alguns veículos se valem de outros, copiam as informações e as colocam no ar na sua emissora, canal, website ou página impressa. Falta tempo para investigar, confirmar com as fontes se o fato é verídico ou procurar outras que as esclareçam melhor, abordar a notícia sobre um prisma diferente, contando os vários lados da história.

E sem isto, o jornalista acaba desrespeitando o seu receptor. O Ctrl+C / Ctrl+V passa por cima do direito autoral, o qual é abordado no artigo 6° do Código de Ética “É dever do jornalista: […] IX. Respeitar o direito autoral e intelectual dos jornalistas em todas as suas formas”.

E por falar em internet, se caiu na rede já não tem mais volta. Que diga a Daniella Cicarelli e Renato Malzoni, flagrados em cenas picantes no ano de 2006 numa praia de Cádiz, na Espanha. Esse vídeo, gravado por um turista, causou tamanha polêmica que foi parar até na justiça. Mesmo depois de ser retirado ar, ele continuou a circular.

O que dizer então do reality show? O Big Brother Brasil já se encaminha pra a nona edição, sempre batendo recordes de audiência. O telespectador busca o espetáculo, ele se identifica com esta “dramatização da realidade”, quer assistir a intrigas e sacanagens, por isso são tantas as novelas que passam diariamente nos canais da TV aberta.

Alguns até podem ficar bravos ao ler esta opinião, mas são raras as exceções que trocam de canal para assistir a um programa educativo, um telejornal ou um documentário não é? Uma espiadela que seja já basta para cativar o público, que acaba se tornando fiel. Mas a culpa não é só daquele que está com controle remoto na mão, é da própria mídia que tenta satisfazer os desejos da sociedade criando, copiando e repetindo os espetáculos de pura dramaticidade que deram tão certo.

O leitor, ouvinte ou telespectador espera que os meios tenham uma função política, econômica, educativa e de entretenimento. Todavia, o que mais se espera de um veículo é o seu compromisso com a verdade. Segundo o artigo 4°, a veracidade com o relato dos fatos é um compromisso fundamental dos jornalistas. A notícia, para autores como Cremilda Medina e Nilson Lage, é um produto a venda que obedece às lógicas mercantis. E é justamente por ter de pagar pela informação que as pessoas esperam que ela seja precisa, reproduzida de forma fiel e correta.

Quando a notícia extrapola a realidade, ganhando pitadas de invenção e grandes toques de exagero cai no sensacionalismo. O primeiro jornal editado nesta linha foi o Publick Occurrences, dos Estados Unidos, o qual teve sua primeira edição publicada no dia 25 de setembro de 1690. A imprensa amarela, na definição estadunidense, ou a imprensa marrom, termo brasileiro, ganhou espaço mundial e continua sendo praticada até hoje. As conseqüências deste “falso jornalismo” são as mais diversas possíveis e disto sim sabemos que o público não gosta. Ao mentir, omitir ou inventar, o jornalista perde o seu público e estraga sua reputação.

Por isso, a apuração dos fatos deve contar com fontes credíveis, que tenham autoridade para discorrer sobre o assunto e que este seja de interesse a sociedade. Fontes estas que podem ser desde cidadãos comuns, a autoridades, entidades ou instituições. O artigo 5° do Código de Ética do Jornalismo assegura o sigilo da fonte quando esta for necessária para o exercício de sua profissão. O caso Ibsen Pinheiro e o Caso Escola Base estão aí para comprovar que a falta de fontes seguras pode acabar com a carreira e até com a vida pessoal de pessoas inocentes.

Neste item o jornalista deve estar sempre muito atento para não ser agendado pela fonte, fato que é comum quando se trata de um político. Alguns são capazes de dar tantas voltas a ponto de acabar não respondendo ao que foi perguntado e o jornalista corre o risco de acabar fazendo uma matéria que não seja de interesse público. Às vezes, pela correria do dia-a-dia ou por falta de profissionais que possam falar com autoridade sobre um determinado assunto, o jornalista opta por procurar as mesmas fontes, o que pode virar em um contato pessoal maior e atrapalhar o trabalho jornalístico.

Outras questões éticas são debatidas em relação ao exercício do jornalista, como o uso de câmeras escondidas e microfones ocultos e a falsa identidade. Segundo o Código de Ética do Jornalismo, em seu artigo 11° “o jornalista não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada […] salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas as outras possibilidades de apuração”.

Cabe ao meio de comunicação identificar o que realmente só será conseguido através de câmeras ocultas e de disfarce. É comum, especialmente na televisão, assistirmos matérias realizadas com câmeras ocultas, como foi à verificação feita nas farmácias sobre a venda do antiinflamatório Prexige, o qual foi proibido de ser posto a venda devido às incertezas a respeito da segurança hepática do seu uso.

Os jornalistas, por vezes, perdem o controle e passam por cima do Código de Ética da profissão, mas o receptor das informações espera que ele saiba agir de forma digna e correta aos desafios encontra no seu cotidiano. Felizmente as pessoas ainda acreditam nos meios de comunicação, pois eles são os repensáveis por informar e dar voz aos cidadãos, denunciando aqueles que não cumprem a lei e trazendo fatos relevantes para o andamento da sociedade. E ainda bem que existem muitos profissionais diplomados e éticos capazes de comunicar de forma verdadeira e apurada os fatos.

Opinião publicada no site Novohamburgo.org

Era para ser um assalto sem testemunhas, lucrável e que mudaria a vida de Perry Edward Smith e Richard Eugene Hickock. Os comparsas acreditavam que na casa do fazendeiro Clutter existia um cofre com milhares de dólares. No entanto, não encontraram a sonhada mina de ouro, deparam-se, apenas, com alguns trocados. Dominados pela cólera do momento, os assaltantes mataram, a sangue frio, os quatro integrantes da família Clutter. O plano acabou rendendo a Smith e Hickock quarenta dólares, um rádio, um binóculo e duas penas de morte.

Esta tragédia foi relatada, nos mínimos detalhes, no livro A Sangue Frio, escrito por Truman Capote. Em 1959, o escritor leu no jornal The New York Times a notícia de um atroz assassinato cometido contra uma família no interior do Estado do Kansas, Estados Unidos. Como devia dinheiro a revista The New Yorker por trabalhos pagos que ele nunca fez, Capote se propôs a realizar uma grande reportagem investigativa sobre o caso. Depois de seis anos, oito mil páginas de anotações e dezenas de entrevistas, a história foi publicada, em quatro partes, na revista The New Yorker. Não demorou muito para virar mais que um livro, uma verdadeira obra de arte do jornalismo literário, e tornar-se imenso sucesso de vendas.

O escritor utilizou mais de cinqüenta páginas para descrever a cidade de Holcomb, a família Clutter e os assassinos antes de chegar ao relato do crime. A narrativa segue contando à história da vida de Hickock e Smith, além de descrever circunstâncias presentes e passadas e pessoas ligadas aos seis personagens principais. O restante do livro destina-se ao desenrolar das investigações, aos dias em que os criminosos passaram no corredor da morte para, finalmente, nas últimas páginas, encerrar com as execuções.

Ruas empoeiradas e sem nome, um correio, uma escola, dois postos de serviço e alguns prédios. Esta é a cidade de Holmcob, um lugar onde nenhum trem de passeio para, apenas um ou outro de carga. Localizada nas altas planícies de trigo, no oeste do Kansas, centro do Estados Unidos, acolhe 270 habitantes, compostos, em sua maioria, por imigrantes das mais variadas origens. Um local ideal para criar gado e carneiro e plantar trigo, milho, beterraba e sementes de grama. Por ser tão pacata, era pouco conhecida até meados de novembro de 1959, quando tiros de espingarda juntarem-se aos costumeiros ruídos noturnos da cidade.

O proprietário da River Valley Farm e pai de quatro filhos, Hebert William Clutter, 48 anos, era o cidadão mais popular e respeitável da comunidade de Holocomb. Detinha vigorosa forma física e gozava de muita saúde, ao contrário de sua mulher, Bonnie Fox, 45 anos. A Senhora Clutter vivia num clima de angústia. Seu nervosismo se acentuou após o nascimento dos seus dois últimos filhos, Nancy e Kanyon. Nancy era uma menina cheia de qualidades e de compromissos. Excelente musicista, dividia seu tempo entre ajudar os outros e a cozinhar, costurar e estudar. Seu irmão, Kaynon, um rapaz alto e forte, tinha poucos amigos. Seu hobby era caçar coelhos, disputar corridas de caminhão com os coiotes e trabalhar com madeira.

Todos foram mortos com um tiro na cabeça por dois homens vaidosos e meticulosos. A amizade entre Perry e Hickock começou ao dividirem a mesma cela na Penitenciária do Estado do Kansas. Homem robusto, mas de corpo desproporcional, Smith, 36 anos, tinha um vocabulário rico. Sonhava em procurar tesouros e gostava de cantar e tocar violão. Mudava de gênio repentinamente e tinha intuições perturbadoras. Foi ele o autor dos quatro disparos. Hickock, 33 anos, mecânico hábil, tinha o corpo de um atleta. Não acredita em superstições e caloteava qualquer pessoa que cruzava seu caminho. Foi o cérebro do crime.

Comandado pelo representante do Departamento de Garden City, Alvin Adams Dewey, as investigações foram realizadas pelos três agentes especiais do Departamento de Investigação do Kansas (DIK): Harold Nye, Roy Church e Clarence Duntz. Após algumas pistas e diversos interrogatórios, o crime só foi desvendado através de uma testemunha: Floyd Wells. Assim como Smith, Wells conheceu Hickock ao compartilharem a mesma cela na penitenciária de Lansing. Baixo e quase sem queixo, trabalhou durante um ano na propriedade do fazendeiro Clutter. Em um dia qualquer, os presos começaram a discutir sobre seus antigos empregos. Wells acabou falando do trabalho que prestou em uma imensa fazenda na cidade de Holcomb, propriedade de um homem repleto de posses.

Depois disso, Hickock não parava de fazer perguntas sobre a família do fazendeiro e pedia detalhes da casa e de sua localização. A partir dessas informações, arquitetou o crime e convidou Smith para ajudá-lo na execução do mesmo. Quando escutou a notícia do assassinato no rádio, Wells contou essa história ao diretor da penitenciária, o qual entrou imediatamente em contato com Alvin Dewey.

O desfecho de toda essa história aconteceu no dia 14 de abril de 1965. Depois de quase dois mil dias de encarceramento no corredor da morte, Perry Smith e Richard Hickock foram, finalmente, enforcados.

Entrelaçando jornalismo e literatura, Capote declarou ter criado um novo gênero literário, o romance de não-ficção. Durante as entrevistas que fez, nunca se apoiou em anotações e, tampouco, contou com o auxilio de gravador. Segundo ele, estes dois aportes prejudicam a observação do ambiente e dos sujeitos, além de inibirem o entrevistado. Mesmo assim, seu índice de aproveitamento dos relatos, dizia ele, chegavam a 95% de precisão.

Grandes polêmicas surgiram após a publicação do livro e das declarações do autor. Diversos literatos comprovaram que Capote não foi o criador, mas sim deu continuidade ao romance não-ficcional. O escritor também foi acusado de beneficiar-se financeira e literariamente da morte dos assassinos e da falta de precisão dos depoimentos dados sobre o caso.

Apesar do cuidado que teve de não se evidenciar na narrativa, percebe-se que o Capote analisou psicologicamente e socialmente os personagens. O escritor relata as circunstâncias em que os assassinos foram criados e as más influências que sofreram ao longo da vida. Em contrapartida, descreve um exemplo de estrutura familiar de dar inveja a qualquer um. Deste modo, parece tentar justificar, nas entrelinhas, que Smith e Hickock não eram seres excessivamente monstruosos como se achava, mas apenas homens abalados pela falta de oportunidade e a demasiada crueldade imposta pelo destino.

Não há como negar o envolvimento do escritor com os dois assassinos, em especial com Perry Smith. Alguns policiais defendiam veementemente que o Capote e Smith eram amantes, outros dizem que pagou cinqüenta dólares para ter uma conversa inicial com os criminosos. Lendas ou não, o fato é que Truman Capote consagrou-se com o livro A Sangue Frio. É inquestionável a sua qualidade textual, a riqueza de detalhes dos lugares e das sensações, e o mergulho jornalístico utilizado na apuração dos fatos. Quando começamos a leitura, não conseguimos mais nos desvencilhar dela até chegar à última página. Mais que um exemplo de jornalismo literário, A Sangue Frio é leitura indispensável a qualquer jornalista.

Em 2005, sob a direção de Bennett Miller, a história de Capote virou filme. Veja o trailer.