Arquivo da categoria ‘Crônicas e poemas’

 

Lino Machado na sua marcenaria, localizada no bairro Guarani, em Novo Hamburgo

Ainda não havia conhecido um porão que falasse tanto de si mesmo, através de detalhes, quanto o de Seu Lino Antônio Machado. Construído parte de grandes tábuas de madeira, parte de pedra, as três janelas de marco verde claro existentes no local permitem que vários feixes de luz se convirjam em um só lugar, atravessem todo o espaço e mostrem, em câmera lenta, a leve dança da poeira.

As serras e serrotes que se apoiam aos ganchos enferrujados pelos longos anos de prestação de serviço nas paredes do porão, ficam em perfeita harmonia com uma dezena de potes de extrato de tomate e a meia dúzia de vidros de pepinos, que abrigam pregos e parafusos sobre a larga mesa de madeira.

Objetos antigos servem de decoração para a marcenaria

As prateleiras distribuídas nos quatro lados do espaço servem de apoio aos objetos antigos, aqueles que seu dono acredita um dia ainda serem úteis. Entre eles, estão um tanque de concreto, um vaso sanitário e uma bicicleta Caloi branca, com mais de 20 anos de existência. No canto esquerdo, empilham-se longas tábuas de cedrinho e pinus, que esperam serem transformadas em formas úteis e decorativas.

Os fios de cabelo escuros de Lino perdem-se em meio às grandes mexas brancas e acinzentadas. A barba cerrada e o bigode escondem as pequenas rugas existentes nos cantos da espessa boca. Os olhos verdes refletem o brilho e a experiência de seus 77 anos de história.

Nos dias de verão, usa chinelo campeiro, uma bermuda velha e um avental de jeans feito com dois grandes bolsos que abrigam pequenas miudezas essenciais para o desenvolvimento de sua arte. No inverno, esquenta o couro cabeludo com a boina preta de feltro e veste um blusão de lã e uma calça de abrigo azulados.

A arte da marcenaria aprendeu com seu pai, e hoje o hobby que ajuda a esquecer dos problemas e a acelerar o tempo, também garante renda extra no final do mês.  Poucos sabem, mas é naquele pequeno porão que ele foge, por alguns momentos, dos problemas de saúde constantes de sua esposa e dos medos que a avançada idade trazem à sua mente.

Em meio à serragem, réguas, lixas, martelos, furadeiras e tintas ele sente-se a vontade para criar porta cuias, cadeiras, mesas, casas de cachorros e de passarinhos.

Todos os objetos da marcenaria estão cobertos de poeira de madeira

As teias de aranha espalhadas em todos os cantos tornam-se visíveis devido a tamanha quantidade de poeira gerada pelo seu trabalho manual. Nenhum objeto escapa ao pó amarronzado, e a única lâmpada existente no porão é a principal testemunha do trabalho desenvolvido pelo pai de seis filhos e avô de nove netos.

Pelas janelas ele acompanha o crescimento das verduras de sua horta e o desenvolvimento da cidade de Novo Hamburgo. Suas inseparáveis companhias são um rádio relógio, o item mais moderno do local e que sempre toca músicas gaudérias, e o cusco de pêlo escuro e encaracolado que atende pelo nome de Simão.

E por mais que os anos passem, ou que as dores físicas apareçam, os sete dias da semana são preenchidos, pelo menos por alguns instantes, de paz e prazer causados pelo sentimento de entretenimento proporcionado pela marcenaria.

Muito trabalho pesado para aquele que cuida do conforto e da beleza do que carregamos nos pés.

Cinco da manhã. O despertador emite um barulho repetitivo e ensurdecedor. José abre lentamente os olhos, senta na cama e desliga o frenético aparelho. Após fazer o sinal da cruz e entrelaçar os dedos das mãos, agradece por mais um dia e pede a benção do Divino. Na cozinha a mulher está com a mesa posta e, enquanto aguarda o marido, prepara o lanche das crianças. José senta-se a mesa e toma uma xícara de café passado com duas colheres de açúcar. Enquanto molha o pão com margarina naquele líquido escuro e amargo, organiza mentalmente as tarefas do dia.

Quando os primeiros raios de sol começam a surgir no horizonte e os galos, ainda tímidos, iniciam a sinfonia matinal, José está pronto para iniciar mais uma jornada de trabalho. O doce beijo da esposa sinaliza o momento de partir. A bicicleta Caloi, ano 72, está aposta esperando seu condutor.

As pedaladas lentas e compridas guiam a magrela em direção ao bairro Rio Branco, onde se localiza a fábrica de calçados femininos Requinte. Assim que chega ao seu destino, José fica por alguns minutos parado fitando a velha casa branca. A pintura descascada revela a implacável ação do tempo. Os finos e compridos filetes de rachadura confundem-se com as trepadeiras e, discretamente, dão a volta no antigo casarão. No topo da fachada o ano 1953, que antigamente servia para marcar com orgulho o início de uma grande e próspera indústria calçadista, ainda permanece com ar imponente.

José bate o cartão, cumprimenta os colegas, leva a marmita à geladeira e veste seu guarda pó azul claro manchado de cola.  Já na sua mesa, afia a faca de corte com o charuto de pedra, pega um talão da prateleira do chefe e começa a cortar o couro marrom escuro conforme a referência indicada. Sua função é participar de todas as etapas de construção do sapato.

Da maior para a menor numeração, sempre com a instrução de economizar, ele segue a dança da navalha sobre aquele espesso e duro pedaço de matéria prima. Outros tecidos mais finos entram na fila e, um a um, ganham forma, transformando-se em pilhas de forros e palmilhas.

Por alguns minutos, cai em grande nostalgia ao relembrar o aprendizado do ofício. Seu pai fora sapateiro e tinha um atelier nos fundos de casa. Aos dez anos de idade José começou a ajudá-lo encaixotando os pares de sapatos. Com o passar do tempo, aprendeu a cortar forros e palmilhas. Sempre sendo supervisionado de perto, tomou gosto pelo trabalhou e iniciou os cortes com couro. No ano que completou 16 anos, seu pai se aposentou e encerrou com as atividades no atelier. Foi então que José partiu em busca de emprego.

Naquela época, Novo Hamburgo era considerada a Capital Nacional do Calçado e o Vale dos Sinos uma das maiores regiões coureiro-calçadista do Brasil. Oportunidades de trabalho não faltavam, ainda mais para quem tinha experiência na área. José chegou a ser supervisor de esteira. Mas, desde 2005, a região passa por uma forte crise no setor. Agora, está cada dia mais difícil ser sapateiro.

José está quase se aposentado. Falta só mais um ano, pensa ele, e volta a se concentrar nas suas atividades. Materiais cortados, é hora de serem chanfrados. Agregam-se a eles fitas de reforço, metais, elásticos e os mais variados ornamentos utilizados no modelo. O cabedal está pronto. O calçado é encaminhado para a montagem. A sineta toca e os trabalhadores partem para o almoço.

Na fila do microondas José conversa com os colegas sobre o baixo volume de pedidos. O mercado chinês acabou com as horas extras e as viradas de noite. Está na hora de pensar em trabalhar com outra coisa, mesmo aposentado, ele não pode ficar parado, mas fazer o que? Durante quarenta anos de sua vida sempre exerceu a mesma função. O seu oficio: sapateiro. E dos bons! Em nenhum outro lugar do mundo existem pessoas que conhecem tão bem os detalhes da confecção de um bom sapato como aqui. Pensa ele.

Chega a sua vez. Quatro minutos são o suficiente para aquecer o feijão, o arroz e a carne de panela. José aprecia com gosto a comida da mulher. Quando está em casa sempre repete. Na mesa do refeitório, composta por vinte homens, os talheres movem-se rapidamente para lá e para cá. Quem senta na ponta tem a sensação de estar assistindo a uma dança de palhetas de pára-brisas durante um forte temporal.

As raspadas no fundo do pote indicam fim da refeição e início da pestana. Sobre caixas de papelão ou nos refeitório, aqueles mais cansados estiram o corpo e fecham os olhos. Outros se arriscam no carteado.

Uma e meia. A sineta indica que tudo deve voltar a ser como antes do meio dia. O sol a pino disputa um duelo com a força das pás do ventilador. O mais forte vence e o calor faz as testas daqueles homens expelirem gotículas de suor.

O contraforte é preso ao sapato é posto por José no contraforte e a forma, entregue por Pedro com a palmilha de montagem presa em sua base, está pronta para ser selada com a torquesa o espichador. Logo após a lixadeira entrar em ação está na hora de receber a sola. A colagem só fica uniforme se as duas partes forem para a sorveteira receber forte calor.

José retira o sapato da máquina e o leva para o torno, cola a palmilha, espera secar e dá o toque na escovadeira. E a missão se repete por toda a tarde. Sapato pronto, é a vez de Inácio colocar a bucha de papel de ceda e encaixotar os 100 pares produzidos durante todo o dia na fábrica. Há alguns anos eram mil.

Seis horas da tarde. O horário de verão confunde, depois de cinco meses voltando para casa na escuridão e, por muitas vezes, no frio e na chuva, agora José faz seu trajeto na companhia do astro rei.

Ao chegar em casa as crianças param de fazer o tema e correm ao seu encontro. São elas, juntamente com a esposa, que dão forças para José continuar, dia após dia, a sua digna batalha pelo alimento e pelo futuro de seus filhos. José se orgulha da profissão e do seu trabalho, ele ama o que faz. Este sentimento foi passado adiante, assim como seu pai o fez. O filho mais velho já disse: quando crescer quero ser sapateiro, igual ao papai!

285980_41411.jpgAna Lúcia iniciou aquela quarta-feira de mal com a vida. Devido a sua fadiga crônica, acúmulo de várias noites mal dormidas, não escutou o relógio despertar. Perdeu a corona, o café e o banho. Esqueceu de olhar a temperatura no termômetro da cozinha e, na pressa, vestiu a blusa de manga comprida que estava sobre o monte de roupas a passar. Desceu as escadas do prédio correndo e chamou um táxi. Lá se foi o dinheiro de três almoços, pensou ela.

O atraso não foi tão grande assim, meia hora apenas. O restante da manhã foi tranqüilo, até o momento em que seu chefe pediu a gentileza dela sair mais cedo e pagar uma conta do escritório. Ana Lúcia não pensou duas vezes em se dirigir ao banco menos movimentado da cidade, que por sorte, ou azar, era próximo ao seu trabalho. No caminho recebeu uma cantada extremamente chula de um mendigo que empurrava uma bicicleta. O sol, já a pino, anunciava 30º. Ela arregaçou as mangas e seguiu em frente.

A coitadinha esqueceu que o dia era de pagamento e topou com uma fila que se desdobrava em três curvas, parecendo uma cobra cascavel pronta a dar o bote. Quando lançou o olhar sobre os quatro guichês suas pupilas iluminaram-se. Todos estavam em operação. Um segundo depois suas bochechas murcharam. Uma das atendentes saiu para o almoço. Sua boca espremeu fortemente. A segunda moça foi almoçar. A fila parecia uma orquestra de faces carrancudas.

Quarenta minutos se passaram e em um dos computadores o sistema caiu. Dez minutos depois a única máquina restante resolveu fazer companhia a sua colega eletrônica. Quanto azar, restavam apenas duas pessoas na frente de Ana Lúcia. Neste meio tempo, uma outra funcionária do banco decidiu oferecer os serviços do estabelecimento aqueles cuja vontade era mandar ela e as malditas vantagens do cartão de crédito para um outro lugar.

As coisas se normalizaram, tudo foi resolvido. Quer dizer, nem tudo. O estômago de Ana Lúcia ruminava enlouquecidamente na espera de receber ao menos algumas migalhas. Faltavam quinze minutos para o expediente recomeçar. O botequim da esquina anunciava a promoção “Pague um leve dois: compre uma empada e ganhe um copo de refrigerante.” Perfeito.

A tarde foi catastrófica. As tarefas trasbordavam pelas mesas, o telefone não parava de tocar e o chefe estressado gritava com os funcionários. Enquanto isso Ana Lúcia sentia o suor escorrer por detrás do pescoço e a azia não dava tréguas mesmo depois do sal de frutas.

O relógio da igreja soou, 18 horas. Final do expediente e início de uma jornada de descanso, pensou Ana Lúcia. Ficou só no pensamento. O ônibus, como sempre, estava lotado e cheirava, como de costume, a suor e cigarro. Para distrai-se começou a contar as paradas em ordem decrescente. Só voltou a realidade quando uma criança, embalada pelo colo da mãe e pelas paradas e arrancadas da condução, vomitou sobre seus pés. O cheiro pavoroso entranhou em todos os olfatos que habitavam aquele lugar. A distância do apartamento parecera ter aumentado em 5 km.

Desembarcou do transporte coletivo e atirou com raiva seus sapatos na lixeira. Ele havia sido usado apenas sete vezes. Subiu as escadas, correu para o chuveiro. Ali permaneceu por vários minutos. A água morna percorria seu corpo de modo a proporcionar prazer por cada poro que passava. Já no quarto, Ana Lúcia dispo-se a tirar um cochilo até a novela começar. Perdeu a novela, mas ganhou a melhor noite de sono de sua vida.

Texto publicado no site Portal3

Sou a Daniela Cristina Machado. Tenho 20 anos e estou no 5ª ano de Jornalismo na Unisinos. Jornalismo? Sim, a paixão pela Comunicação iniciou cedo. Todavia, isso não vem ao caso. Por muitas vezes tentei iniciar um blog, sempre com aquela idéia de diário On-line. Mas, dessa vez será diferente. Este blog será um espaço para a publicação das minhas produções escritas e audiovisuais.

Pedaço da alma

Após passar por um grande portão de ferro marrom e três portas de madeira, encontro um lugar totalmente meu. Em cada poro das quatro paredes existe um pouco de mim, do que sou e sinto. Um ambiente pequeno, claro, alto, com cheiro de jasmim e cheio de vida.

Ao amanhecer, as frestas da única janela existente deixam os raios de sol penetrar naquele universo, consumindo com a escuridão e funcionando como um relógio. Quando os delgados filetes de luzes atingem a maçaneta da porta já passou mais que a hora de levantar. Os móveis em tons pastéis estão dispostos de maneira estratégica a permitir uma leve circulação ao seu redor. Os objetos são encontrados as dúzias. Muito coloridos e com desenhos infantis, transparecem em suas formas que pertencem a uma menina-mulher em fase de transição.

Livros na cabeceira da cama, tapete no chão, estrelas no teto, quadro de autoria própria sob a televisão. Risos, choros, pessoas, solidão, revolta e realização jazeram por ali, assim como o incontrolável tempo. O vento que balança a escura cortina faz o local ficar em paz consigo mesmo. Aparelhos eletrônicos misturam-se com antiguidades e com uma memória adormecida. Cada peça do parquê dá forma a um quebra-cabeça e deixa a imaginação, daquela que por ali sempre pisa, viajar a outras galáxias.

Às vezes, as paredes insistem enlouquecidamente em trocar a roupagem branca pela azul.

Em raros momentos, querem dar longos passos para trás e construírem um mundo maior. A cama de solteiro por hora gostaria de duplicar-se e invadir o corredor. O guarda-roupa se realizaria com um volume extraordinário de peças contido em seu interior. A lâmpada sob a cabeceira exige ser chamada de abajur. O rack põe em alerta quando é cogitada a idéia de seu descarte. O chão sonha em ser coberto por um carpete.

Felizmente, estes súbitos instantes acontecem esporadicamente, a ponto de nunca saírem do sonho e virar realidade. Os retratos dispostos em todos os lugares revelam a identidade de um ser que por ali busca um abrigo. O material constituinte daquelas muralhas parece de papel. O som vindo de animais, goteiras e conversa dos vizinhos invade sem reluta o recinto.

Esse quadrado mágico que me traz o dia, também revela um local ainda mais lindo lá fora. A janela me permite ter a visão da natureza, misturada às outras casas, pessoas e meios de transporte. A sua largura é suficiente para me aconchegar sentada. Sozinha, com as penas dependuradas, fixo-me sobre seus frisos e equilibro meu corpo. Gosto de passar breves momentos ali.

O pequeno pedaço do céu, chamado quarto, é também parte da alma. Sinto-me aconchegada neste formoso espaço. Se ficar por muitas horas em seu interior, ele vira uma prisão. Se passo longos dias afastada, a saudade bate forte no coração.