A cobertura jornalística de desastres

Publicado: 12/02/2010 em Jornalismo
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Os meios de comunicação foram, muitas vezes, sensacionalistas e tendenciosos na apuração dos fatos relacionados aos desastres naturais ocorridos no último mês no Brasil

Desde o início do ano, parece que os assuntos relacionados ao clima mundial viraram pauta obrigatória dos jornais on-line brasileiros. Diversos vídeos e fotos do deslizamento de terra em Angra dos Reis, as fortes chuvas em São Paulo e terremoto no Haiti estamparam a capa dos grandes portais durante todo o mês de janeiro.

Uma das chamadas de capa do G1, no último domingo do mês, diz “Tremor mata 1 e fere 11 na China” 1 e  a notícia principal da Folha Online é a seguinte “Chuvas no Paraná afetam mais de 4.000 pessoas e matam três”2.

O iG usou essas duas chamadas na capa do seu portal dando destaque aos números. Já o Globo tratou dos dois assuntos de forma mais branda, sem explorar tanto os números, e trouxe informações mais detalhadas sobre a situação.

A dor é estampada de forma dramática e cruel. Close nos olhos cheios de lágrimas, flashes sobre corpos cobertos por uma lona preta e diversas reprises este tipo de cena. Fazer cobertura jornalística de forma sensacionalista em tragédias parece ter entrado como dica para atrair mais leitores nos manuais de redação dos veículos de comunicação.

Nesse artigo estou abordando a forma de noticiar da Web, mas sabemos e vemos como a televisão  é a maior oportunista de casos como esses.

Claro que os problemas causados pelo clima devem ser mostrados, mas não basta apenas explorar a dor dessas pessoas e exaltar o número de mortos. É preciso entender o porquê dessas tragédias estarem acontecendo, qual a relação disso com a destruição do meio ambiente, que medidas o governo está tomando para sanar esse tipo de problema, averiguar se as doações estão realmente chegando as áreas tingidas, entre tantas outras informações que um bom jornalista deve levar até a população.

Além disso, sempre é  importante checar os dois lados da história. Por ser um espaço mais democrático e aberto para as diferentes opiniões, se começarmos a procurar por informações na Internet sobre o terremoto no Haiti, por exemplo, veremos uma realidade do país que não aparece na televisão ou nos jornais.

Blogs trazem relatos de pessoas que há anos denunciam o abandono do país, sites de relacionamento como o Twitter e o Orkut ajudam os haitianos que estão fora do país a terem informações sobre seus parentes e amigos, sem contar a rede de solidariedade que circula nos mais diversos sites brasileiros e estrangeiros.

Susan Sontag retrata em seu livro a reação das pessoas diante fotos de guerra

A polêmica escritora e ativista americana Susan Sontag escreveu em seu livro que trata sobre fotografia de guerra, denominado “Diante da dor dos outros– Companhia das Letras, 2003”, que a realidade tornou-se um espetáculo e que “o sofrimento explode, é compartilhado por muita gente e depois desaparece”.

Segundo ela, paramos para olhar as cenas do sofrimento alheio, mas brigamos para que elas fiquem ocultas quando se refere a algum de nossos familiares.

É responsabilidade do cidadão – leitor/telespectador/ouvinte – cobrar mais da mídia sobre a apuração dos fatos e refletir o quanto está contribuindo para transformar as páginas dos jornais online e offline em meros reprodutores de imagens e textos sensacionalistas, deixando a atitude e a solução dos problemas em segundo lugar.

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