Era para ser um assalto sem testemunhas, lucrável e que mudaria a vida de Perry Edward Smith e Richard Eugene Hickock. Os comparsas acreditavam que na casa do fazendeiro Clutter existia um cofre com milhares de dólares. No entanto, não encontraram a sonhada mina de ouro, deparam-se, apenas, com alguns trocados. Dominados pela cólera do momento, os assaltantes mataram, a sangue frio, os quatro integrantes da família Clutter. O plano acabou rendendo a Smith e Hickock quarenta dólares, um rádio, um binóculo e duas penas de morte.

Esta tragédia foi relatada, nos mínimos detalhes, no livro A Sangue Frio, escrito por Truman Capote. Em 1959, o escritor leu no jornal The New York Times a notícia de um atroz assassinato cometido contra uma família no interior do Estado do Kansas, Estados Unidos. Como devia dinheiro a revista The New Yorker por trabalhos pagos que ele nunca fez, Capote se propôs a realizar uma grande reportagem investigativa sobre o caso. Depois de seis anos, oito mil páginas de anotações e dezenas de entrevistas, a história foi publicada, em quatro partes, na revista The New Yorker. Não demorou muito para virar mais que um livro, uma verdadeira obra de arte do jornalismo literário, e tornar-se imenso sucesso de vendas.

O escritor utilizou mais de cinqüenta páginas para descrever a cidade de Holcomb, a família Clutter e os assassinos antes de chegar ao relato do crime. A narrativa segue contando à história da vida de Hickock e Smith, além de descrever circunstâncias presentes e passadas e pessoas ligadas aos seis personagens principais. O restante do livro destina-se ao desenrolar das investigações, aos dias em que os criminosos passaram no corredor da morte para, finalmente, nas últimas páginas, encerrar com as execuções.

Ruas empoeiradas e sem nome, um correio, uma escola, dois postos de serviço e alguns prédios. Esta é a cidade de Holmcob, um lugar onde nenhum trem de passeio para, apenas um ou outro de carga. Localizada nas altas planícies de trigo, no oeste do Kansas, centro do Estados Unidos, acolhe 270 habitantes, compostos, em sua maioria, por imigrantes das mais variadas origens. Um local ideal para criar gado e carneiro e plantar trigo, milho, beterraba e sementes de grama. Por ser tão pacata, era pouco conhecida até meados de novembro de 1959, quando tiros de espingarda juntarem-se aos costumeiros ruídos noturnos da cidade.

O proprietário da River Valley Farm e pai de quatro filhos, Hebert William Clutter, 48 anos, era o cidadão mais popular e respeitável da comunidade de Holocomb. Detinha vigorosa forma física e gozava de muita saúde, ao contrário de sua mulher, Bonnie Fox, 45 anos. A Senhora Clutter vivia num clima de angústia. Seu nervosismo se acentuou após o nascimento dos seus dois últimos filhos, Nancy e Kanyon. Nancy era uma menina cheia de qualidades e de compromissos. Excelente musicista, dividia seu tempo entre ajudar os outros e a cozinhar, costurar e estudar. Seu irmão, Kaynon, um rapaz alto e forte, tinha poucos amigos. Seu hobby era caçar coelhos, disputar corridas de caminhão com os coiotes e trabalhar com madeira.

Todos foram mortos com um tiro na cabeça por dois homens vaidosos e meticulosos. A amizade entre Perry e Hickock começou ao dividirem a mesma cela na Penitenciária do Estado do Kansas. Homem robusto, mas de corpo desproporcional, Smith, 36 anos, tinha um vocabulário rico. Sonhava em procurar tesouros e gostava de cantar e tocar violão. Mudava de gênio repentinamente e tinha intuições perturbadoras. Foi ele o autor dos quatro disparos. Hickock, 33 anos, mecânico hábil, tinha o corpo de um atleta. Não acredita em superstições e caloteava qualquer pessoa que cruzava seu caminho. Foi o cérebro do crime.

Comandado pelo representante do Departamento de Garden City, Alvin Adams Dewey, as investigações foram realizadas pelos três agentes especiais do Departamento de Investigação do Kansas (DIK): Harold Nye, Roy Church e Clarence Duntz. Após algumas pistas e diversos interrogatórios, o crime só foi desvendado através de uma testemunha: Floyd Wells. Assim como Smith, Wells conheceu Hickock ao compartilharem a mesma cela na penitenciária de Lansing. Baixo e quase sem queixo, trabalhou durante um ano na propriedade do fazendeiro Clutter. Em um dia qualquer, os presos começaram a discutir sobre seus antigos empregos. Wells acabou falando do trabalho que prestou em uma imensa fazenda na cidade de Holcomb, propriedade de um homem repleto de posses.

Depois disso, Hickock não parava de fazer perguntas sobre a família do fazendeiro e pedia detalhes da casa e de sua localização. A partir dessas informações, arquitetou o crime e convidou Smith para ajudá-lo na execução do mesmo. Quando escutou a notícia do assassinato no rádio, Wells contou essa história ao diretor da penitenciária, o qual entrou imediatamente em contato com Alvin Dewey.

O desfecho de toda essa história aconteceu no dia 14 de abril de 1965. Depois de quase dois mil dias de encarceramento no corredor da morte, Perry Smith e Richard Hickock foram, finalmente, enforcados.

Entrelaçando jornalismo e literatura, Capote declarou ter criado um novo gênero literário, o romance de não-ficção. Durante as entrevistas que fez, nunca se apoiou em anotações e, tampouco, contou com o auxilio de gravador. Segundo ele, estes dois aportes prejudicam a observação do ambiente e dos sujeitos, além de inibirem o entrevistado. Mesmo assim, seu índice de aproveitamento dos relatos, dizia ele, chegavam a 95% de precisão.

Grandes polêmicas surgiram após a publicação do livro e das declarações do autor. Diversos literatos comprovaram que Capote não foi o criador, mas sim deu continuidade ao romance não-ficcional. O escritor também foi acusado de beneficiar-se financeira e literariamente da morte dos assassinos e da falta de precisão dos depoimentos dados sobre o caso.

Apesar do cuidado que teve de não se evidenciar na narrativa, percebe-se que o Capote analisou psicologicamente e socialmente os personagens. O escritor relata as circunstâncias em que os assassinos foram criados e as más influências que sofreram ao longo da vida. Em contrapartida, descreve um exemplo de estrutura familiar de dar inveja a qualquer um. Deste modo, parece tentar justificar, nas entrelinhas, que Smith e Hickock não eram seres excessivamente monstruosos como se achava, mas apenas homens abalados pela falta de oportunidade e a demasiada crueldade imposta pelo destino.

Não há como negar o envolvimento do escritor com os dois assassinos, em especial com Perry Smith. Alguns policiais defendiam veementemente que o Capote e Smith eram amantes, outros dizem que pagou cinqüenta dólares para ter uma conversa inicial com os criminosos. Lendas ou não, o fato é que Truman Capote consagrou-se com o livro A Sangue Frio. É inquestionável a sua qualidade textual, a riqueza de detalhes dos lugares e das sensações, e o mergulho jornalístico utilizado na apuração dos fatos. Quando começamos a leitura, não conseguimos mais nos desvencilhar dela até chegar à última página. Mais que um exemplo de jornalismo literário, A Sangue Frio é leitura indispensável a qualquer jornalista.

Em 2005, sob a direção de Bennett Miller, a história de Capote virou filme. Veja o trailer.


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