O Flip foi uma maneira encontrada de se manter uma certa familiaridade do jornal impresso com a sua versão on-line. O Jornal Zero Hora, o Jornal do Brasil e a Revista Pix, são alguns exemplos de publicações jornalísticas que utilizam o recurso do Flip para apresentarem o seu conteúdo aos leitores via web, de uma forma parecida com versão impressa.

A “grande semelhança” dessa versão que circula na rede foi criar no leitor a ilusão de estar virando a página do jornal impresso. Ao passarmos o mouse no canto superior ou inferior da página, a clássica dobrinha aparece e o leitor tem uma pequena noção do que virá nas próximas páginas. Digo pequena noção, porque só conseguimos notar se há alguma figura, cores chamativas ou um título destacado na página seguinte, sem conseguir ler o que segue.

Essa “folhada” on-line tira algumas sensações que o jornal e a revista impressa causam no leitor quando estes estão em suas mãos. A primeira coisa que se nota é a ausência daquele cheiro característico dos jornais e das revistas, destas últimas em especial, pois possuem um odor bem mais forte e que varia conforme o papel utilizado. Em segundo lugar, percebemos que os dedos não ficam manchados de tinta preta, no caso do jornal.

Para aqueles que possuem a mania de começar a leitura pela última página, vão ter de procurar publicações jornalísticas que tenham como opção no Flip a tecla que vai direto para o fim. Caso não tenha, você terá que passar folha a folha para depois fazer o caminho inverso.

Aquele barulho de se folhar as páginas das revistas e dos jornais também é imitado no Flip. No caso da Revista Pix, o barulho parece mais uma máquina registradora, diferente do Jornal do Brasil onde o som chega próximo ao real. Esse som nunca será idêntico ao real, pois o barulho da virada da página depende da intensidade da força que aplicamos ao pegar na “orelha”. Ao contrário da versão on-line onde o som será sempre o mesmo, independente se o usuário clicar com mais ou menos força.

Pressa é uma palavra que não combina com o Flip. O tempo de carregamento de cada página é grande, no caso da Revista Pix, leva-se mais de dois minutos para o usuário poder folhear as páginas. O usuário se vê obrigado a utilizar a ferramenta lupa para aumentar o tamanho das letras e poder ler as matérias. Ao utilizarmos essas ferramentas extras também temos de esperar o processamento da informação e corremos o risco de trancar todo o arquivo.

Parece que os anunciantes ganharam mais vantagens que os próprios leitores dos impressos que circulam na rede, já que os anúncios aparecem na íntegra nessa versão on-line.

O Flip tentou parecer praticamente igual às versões impressas, contudo, ao querer preservar determinadas características originais, acaba explorando muito pouco as potencialidades desse outro meio. Não podemos esquecer que um meio sempre terá um outro meio que o inspirou e, por isso, vai possuir algumas características parecidas com ele, como por exemplo, a apropriação que a televisão fez do cinema.


Conforme Marshall McLuhan, explicado por Vinícius Andrade Pereira no artigo As tecnologias de comunicação como gramáticas: meio e mensagem na obra de Marshall McLuhan, toda nova tecnologia possui conteúdo prévio. “[…] o conteúdo de um meio é o outro meio. Um meio porta um outro meio no seu interior, como maneira de apresentar e de se traduzir para o usuário.”

Porém, quando a mensagem está circulando em outro meio, deve ser explorado as novas potencialidades que ela pode ter nesse novo lugar. “McLuhan fala explicitamente que o meio, sendo tomado como uma extensão tecnológica, cria um meio ambiente que, por sua vez, funciona como um texto, como uma gramática própria.” No caso do Flip, vemos a capa do jornal e da revista impressa digitalizados na web, mas não os temos em nossas mãos, portanto já é outra linguagem. As palavras não estão mais impressas, elas foram digitalizadas.

Por mais que o Flip tenha certa semelhança com as publicações impressas, querendo ou não, ele acaba se utilizando dos recursos que a web oferece. Conforme McLuhan “as mensagens estando amarradas, fixas, revelam-se como reflexos de uma gramática comum a um dado meio, chegando-se, assim, à famosa divisa: o meio é a mensagem”.

Mas o que é a mensagem? “A mensagem é tudo aquilo que é recostado, organizado, por um dado sistema dentro de um conjunto amplo de informações disponíveis. O recorte, o arranjo em questão, deve ser entendido como a ampliação de uma ordem, de uma organização, de uma gramática, que capta e dispõe as informações, produzindo mensagens. E uma vez que se tenha uma mensagem, é sobre ela que o sistema irá atuar, buscando produzir significações.” Cada meio produz suas próprias significações. Sendo assim, o conteúdo que está no veículo impresso, por mais que esteja na íntegra em outro meio e que dele não se utilize de recursos adicionais, só pelo fato de estar circulando na rede já irá produzir uma outra mensagem.

Como por exemplo, no caso do Zero Hora versão Flip, onde o usuário tem a possibilidade de clicar nas matérias para visualizar o texto em um box. Assim como no Jornal do Brasil o internauta clica na editoria de sua preferência e o Flip abre a página onde estão as notícias classificadas como tal. Já na Revista Pix versão Flip, quando o leitor clica nos endereços de sites existentes nas matérias, se abre uma nova janela exibindo o site. Assim como se o usuário clicar no endereço de e-mail o Outlook abre uma janela para enviar a mensagem.

Por isso, o clicar difere do folhear e andar com o jornal debaixo do braço e ler em qualquer lugar difere de andar com um notebook para acessar a versão on-line, correndo o risco de não ter conexão com a internet. Como diria McLuhan, “o meio é a mensagem”, mas para a mensagem fazer efeito ele deve se utilizar de todos os recursos do meio, coisa que o Flip não faz.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s