Azar cumulativo

Publicado: 06/03/2008 em Crônicas e poemas
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285980_41411.jpgAna Lúcia iniciou aquela quarta-feira de mal com a vida. Devido a sua fadiga crônica, acúmulo de várias noites mal dormidas, não escutou o relógio despertar. Perdeu a corona, o café e o banho. Esqueceu de olhar a temperatura no termômetro da cozinha e, na pressa, vestiu a blusa de manga comprida que estava sobre o monte de roupas a passar. Desceu as escadas do prédio correndo e chamou um táxi. Lá se foi o dinheiro de três almoços, pensou ela.

O atraso não foi tão grande assim, meia hora apenas. O restante da manhã foi tranqüilo, até o momento em que seu chefe pediu a gentileza dela sair mais cedo e pagar uma conta do escritório. Ana Lúcia não pensou duas vezes em se dirigir ao banco menos movimentado da cidade, que por sorte, ou azar, era próximo ao seu trabalho. No caminho recebeu uma cantada extremamente chula de um mendigo que empurrava uma bicicleta. O sol, já a pino, anunciava 30º. Ela arregaçou as mangas e seguiu em frente.

A coitadinha esqueceu que o dia era de pagamento e topou com uma fila que se desdobrava em três curvas, parecendo uma cobra cascavel pronta a dar o bote. Quando lançou o olhar sobre os quatro guichês suas pupilas iluminaram-se. Todos estavam em operação. Um segundo depois suas bochechas murcharam. Uma das atendentes saiu para o almoço. Sua boca espremeu fortemente. A segunda moça foi almoçar. A fila parecia uma orquestra de faces carrancudas.

Quarenta minutos se passaram e em um dos computadores o sistema caiu. Dez minutos depois a única máquina restante resolveu fazer companhia a sua colega eletrônica. Quanto azar, restavam apenas duas pessoas na frente de Ana Lúcia. Neste meio tempo, uma outra funcionária do banco decidiu oferecer os serviços do estabelecimento aqueles cuja vontade era mandar ela e as malditas vantagens do cartão de crédito para um outro lugar.

As coisas se normalizaram, tudo foi resolvido. Quer dizer, nem tudo. O estômago de Ana Lúcia ruminava enlouquecidamente na espera de receber ao menos algumas migalhas. Faltavam quinze minutos para o expediente recomeçar. O botequim da esquina anunciava a promoção “Pague um leve dois: compre uma empada e ganhe um copo de refrigerante.” Perfeito.

A tarde foi catastrófica. As tarefas trasbordavam pelas mesas, o telefone não parava de tocar e o chefe estressado gritava com os funcionários. Enquanto isso Ana Lúcia sentia o suor escorrer por detrás do pescoço e a azia não dava tréguas mesmo depois do sal de frutas.

O relógio da igreja soou, 18 horas. Final do expediente e início de uma jornada de descanso, pensou Ana Lúcia. Ficou só no pensamento. O ônibus, como sempre, estava lotado e cheirava, como de costume, a suor e cigarro. Para distrai-se começou a contar as paradas em ordem decrescente. Só voltou a realidade quando uma criança, embalada pelo colo da mãe e pelas paradas e arrancadas da condução, vomitou sobre seus pés. O cheiro pavoroso entranhou em todos os olfatos que habitavam aquele lugar. A distância do apartamento parecera ter aumentado em 5 km.

Desembarcou do transporte coletivo e atirou com raiva seus sapatos na lixeira. Ele havia sido usado apenas sete vezes. Subiu as escadas, correu para o chuveiro. Ali permaneceu por vários minutos. A água morna percorria seu corpo de modo a proporcionar prazer por cada poro que passava. Já no quarto, Ana Lúcia dispo-se a tirar um cochilo até a novela começar. Perdeu a novela, mas ganhou a melhor noite de sono de sua vida.

Texto publicado no site Portal3

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