Noite italiana em Igrejinha

A 10ª Festa Italiana da Sociedade Bona Gente ocorre neste sábado, dia 19, em Igrejinha, e promete resgatar a cultura italiana com comidas, música e atrações típicas

Outubro é o mês da Oktoberfest de Igrejinha e julho o mês da Festa Italiana. Isso mesmo! A cultura italiana também está presente na cidade, onde a maior parte da população é de descendência alemã.

A 10ª Festa Italiana da Sociedade Bona Gente promete fazer um resgate cultural na noite de sábado, dia 19. Antes da festa será celebrada uma missa, com canto em italiano, na Igreja Católica de Igrejinha. Às 19h30, o salão da Igreja abrirá as portas para dar início aos festejos.

Polenta, massa e galeto são apenas algumas das delícias que vão compor a janta típica italiana. A tradicional sopa de capeletti e os nove tipos de vinhos serão servidos até o final da festa.

O grupo musical Sul de Paion, de Caxias do Sul, animará a noite que vai contar ainda com sorteio de diversos brindes. Entre eles, um sortudo poderá ganhar uma viagem para a Ferrovia do Vinho.

O cartão custa R$ 27,00 por pessoa e poderá ser adquirido no local. Além de dar direito a comida e vinho à vontade, os participantes poderão deixar gratuitamente seus veículos no estacionamento, que será vigiado por seguranças a noite toda. Participe e aprenda um pouco mais sobre a cultura italiana!

O que? 10ª Festa Italiana da Sociedade Bona Gente

Onde? Salão da Igrejinha Católica de Igrejinha, localizada no Centro da cidade

Quando? Sábado, dia 19 de julho

Quanto? R$27,00 por pessoa

Informações: Paulinho Boniatti, fone 9972.6641

Add comment Julho 19, 2008

A democracia está adormecida

Foto: Daniela Machado
Numa época em que participar de um movimento estudantil significava correr muitos ricos, entre eles até a morte, os jovens não se acuaram, pelo contrário, lutaram bravamente. Tanto que, até hoje, as suas vozes ecoam pelos cantos do país.

Contudo, essas são histórias do passado. Nos dias atuais, a maioria dos jovens não pensa coletivamente, isola-se do mundo e, às vezes, luta pelos seus ideais particulares. Nem os escândalos políticos do governo Lula mobilizaram os estudantes. Nenhuma bandeira foi levantada, nenhuma faixa foi lida e nenhuma voz foi escutada.

Mesmo assim, ainda existem aqueles que desenvolvem uma consciência política, discutindo e amadurecendo as suas idéias em pequenos espaços. É o caso dos Grêmios Estudantis nas escolas e dos Diretórios Acadêmicos (D.A) e dos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCE) das faculdades e universidades.

Na semana passada aconteceu às eleições do novo Diretório Acadêmico da Ciências da Comunicação da Unisinos, que representa todos os estudantes dos cursos de Relações Públicas, Publicidade e Propaganda e Jornalismo.

Porém, o número de votos foi baixíssimo. Fiquei espantada com a falta de conhecimento dos estudantes. Fiz uma pequena enquete com alguns alunos e maioria não sabe o que é um D.A, para que ele serve e onde ele se localiza dentro do campus. E os alunos que o conhecem, geralmente não costumam participar de suas ações, de suas eleições e muito menos de sua formação. O D.A da está localizado em cima do restaurante Fratello, mas apenas um cartaz torto, contendo os eventos realizados pelo diretório durante a sua gestão, identifica o lugar.

Como explicar tamanho descaso com um grupo que, pelo menos na teoria, representa a voz dos alunos de comunicação e luta por melhorias no ensino e na universidade? Talvez seja pela falta de envolvimento e divulgação do próprio D.A. Não é comum presenciarmos reivindicações, projetos, eventos e discussões organizadas pelo diretório. Falta de Comunicação em um D.A que representa os alunos da área de comunicação é algo grave.

Mais grave ainda é a falta de interesse dos estudantes. Para ser eleita uma chapa precisa de, no mínimo, 10% de votos do número total de estudantes do Centro da Comunicação. O que não tem sido tarefa fácil. Deve ser pela falta de cumprimento das promessas, que ano após ano, são pronunciadas nos discursos e publicadas nos panfletos, mas nunca são colocadas em prática.

Está cada vez mais difícil encontrarmos jovens interessados em exercer a democracia. No mês passado participei de uma palestra sobre a importância do voto aos 16 anos. O assunto que dominava a sala lotada de jovens entre 15 e 17 anos não era o debate sobre a participação dos estudantes no processo eleitoral do país, mas sim a atualização das fofocas do final de semana.

Se a participação política em pequenos espaços já é pequena, imagina em esfera nacional. O cenário político do Brasil está cada vez mais se encaminhando para a corrupção e para o descaso com a população. Nós eleitores esquecemos-nos do poder que temos na mão quando não atribuímos o devido valor ao voto.

Matéria publicada no site Novohamburgo.org

3 comments Junho 22, 2008

O movimento estudantil no Brasil

Foto: Daniela Machado

A luta pela ética na política e pelos direitos dos cidadãos já fez milhares de estudantes saírem das salas de aula e invadirem as ruas desse país. Os movimentos estudantis existem no Brasil desde a época da escravidão, mas foi só a partir da criação da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 13 de agosto de 1937, que esses jovens começaram realmente a lutar pela democracia e pela justiça social no Brasil.

Desde então, a UNE participou de diversos movimentos importantes como a manifestação contra o regime nazi-fascista que se instaurou no país com o Estado Novo. Também exigiu uma posição do Brasil contra o Eixo durante a Segunda Guerra Mundial e lutou pelo fim da ditadura Vargas.

Em 1947 a UNE aderiu à campanha O Petróleo é Nosso e nos anos 60, somada às representações estaduais de estudantes universitários, se posicionou ao lado dos movimentos populares.

Querendo mudanças, os movimentos estudantis criam os Centros Populares de Cultura e levam as discussões dos problemas sociais brasileiros a diversas regiões do país através do teatro, do cinema e da música.

A União Nacional dos Estudantes ficou ao lado do presidente João Goulart na greve geral de 1962 e lutou pela reforma educacional. Mesmo com a Ditadura Militar instaurada em 1964, os estudantes continuam, na ilegalidade, reivindicando por uma sociedade mais justa e igualitária.

A decretação do Ato Institucional Número 5 (AI-5) fez calar os movimentos estudantis até o final dos anos 70, quando os jovens voltaram às ruas para lutar pela anistia e pela instauração do regime democrático.

Em 1985 a UNE retorna à legalidade e os grêmios e centros estudantis ressurgem. Mas o último e maior movimento estudantil do país foi a Manifestação dos Caras Pintadas, ocorrida no ano de 1992. Nesse ato, os estudantes manifestaram-se a favor do impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello, pintaram o rosto e se posicionaram contra a corrupção na política.

Novos rumos

O movimento estudantil brasileiro acordou neste ano. A invasão da reitoria da Universidade de Brasília (UnB), no dia 15 de abril, resultou na renúncia do então reitor Timothy Mullholand, suspeito de usar indevidamente os recursos públicos da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) para equipar o apartamento funcional em que morava.

Mas ainda é muito pouco. Segundo o jornal Folha de São Paulo as pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e pelo Instituto Pólis com 8.000 jovens de 15 a 24 anos, demonstrou que apenas 3% dos estudantes participam de associações estudantis.

Para que o movimento estudantil continue sendo um local representativo para os jovens estudantes se faz necessário um maior engajamento de todos. Os ideais precisam sair do mundinho isolado de cada um e se expandir, unindo-se a tantos outros por uma causa maior. Espaços como o D.A, DCE e Grêmios Estudantis devem ser melhor aproveitados.

Por comodidade, falta de tempo ou medo, os jovens ficam acuados e acabam tornando-se pessoas passivas e sem opinião sobre os acontecimentos do cenário político nacional. Está mais do que na hora do movimento estudantil tomar novos rumos. Caso contrário, tudo vai continuar acabando em pizza.

3 comments Junho 22, 2008

Prefeituras discutem Comunicação

A Semana da Comunicação da Unisinos movimentou os corredores, as salas de aulas, as tendas e os estúdios de TV e rádio do Centro 3, assim como os auditórios, mini-auditórios e o anfiteatro do campus. O evento, que aconteceu entre os dias 2 e 6 de junho, comemorou os 35 anos dos cursos de comunicação da universidade.

O II Seminário de Comunicação Social da Região Metropolitana e Vale dos Sinos, ocorrido na tarde de quarta-feira (04/06) no Auditório Pe. Bruno Hammes, foi o evento mais esperados da semana, depois da palestra do MST. O espaço ficou lotado e contou com uma grande participação dos alunos de jornalismo.
Professores e profissionais da área de Comunicação Social expuseram, em cinco painéis, os desafios da comunicação municipal e a importância das Assessorias de Imprensa das Prefeituras.

Comunicação estratégica

O professor Pedro Luiz da Silveira Osório mediou o seminário, que iniciou com o painel Como promover a comunicação integrada nas assessorias de comunicação das prefeituras em sintonia com o governo municipal? Segundo a palestrante Tânia Almeida, professora da Unisinos, a comunicação precisa estar integrada com a gestão da prefeitura, pois ela é uma atividade meio. “Quando se está no poder público, não se pode perder a noção de política, do compromisso com a sociedade. A gestão pública é muito dinâmica, por isso, o setor de comunicação deve planejar diversas ações estratégicas”, afirma.

Contudo, a jornalista aconselha os assessores a deixar bem claro aos prefeitos e secretários que a comunicação não faz milagres. “Noticiamos os eventos, mas a capacidade de persuasão não é controlada. Não fazemos milagres, fazemos comunicação, não temos o controle de tudo”, diz Tânia. A professora trouxe dois exemplos, uma campanha de obras e um projeto institucional, para ilustrar a sua exposição.

A publicidade da prefeitura na capital gaúcha

A Coordenadora de Publicidade da Prefeitura de Porto Alegre, Aline Kusiak, fez uma apresentação muito sucinta e rápida sobre Quais as vantagens do departamento de publicidade nas assessorias de comunicação das Prefeituras?

Mesmo confessando seu pânico de falar em público, Aline discorreu sobre o desafio de comunicar um milhão e 400 mil pessoas de uma forma transparente e eficiente. “Temos que saber como usar bem a verba da publicidade. A escolha da mídia baseia-se naquela que tem a maior circulação e que traga um grande retorno”, explicou a publicitária.

Jornalismo político

Após o vergonhoso coffee breack, momento em que todo o público atacou com selvageria a mesa dos salgadinhos e doces no hall de entrada do auditório, iniciou o painel mais esperado da tarde. A jornalista Rosane de Oliveira, colunista de política do jornal Zero Hora e comentarista da TVCOM, falou sobre Como fazer comunicação em ano eleitoral?

Segundo a jornalista, seu foco de trabalho é a independência. O seu blog é o segundo em número de comentários do portal Clic RBS. “No jornal impresso e no blog me sinto livre para criticar ou elogiar e escolher os assuntos dos quais vou falar. Diferente do que acontece na televisão e no rádio, mídias onde fico o tempo inteiro na corda bamba, ponderando a cada palavra.”, desabafa Rosane.

Diversas dicas foram passadas pela jornalista. “Estar na assessoria de comunicação de uma prefeitura ou empresa não significa mandar release para todo mundo, você deve saber para qual público está falando”. Rosane também aconselhou os comunicadores a nunca mentir, a facilitar o acesso do jornalista a assessoria e cuidar dos detalhes. “Por mais que trabalhamos em processo industrial, devemos ter atenção aos detalhes. Se algo sair errado em um release, por exemplo, ele é colocado no lixo e sua informação não é publicada”, explica.

A assessoria de comunicação, na visão de Rosane, é mais ampla do que parece “Às vezes o mais importante não é sair no jornal, comunicação não é publicidade. Devemos pautar o que vai de encontro ao interesse do leitor e não o que os políticos querem”. O fundamental, segundo ela, é informar a comunidade. O assunto política não é fácil de ser passado à população, por isso, a jornalista aconselha usar uma linguagem acessível nos meios de comunicação.

Para encerrar, Rosane mostrou o quanto os profissionais da comunicação são importantes para o leitor na época de eleições. “Na falta de quem recorrer, as pessoas procuram a imprensa. Está faltando na mídia às soluções para os problemas, os jornalistas devem chegar ao limite. Quanto mais discutirmos, mais o eleitor vai saber em quem votar”, finaliza.

Informação com criatividade

Fabrício Carpinejar, coordenador do curso Formação de Escritores e Agentes Literários, animou o seminário com o seu jeito irreverente. De unhas pintadas de preto e óculos amarelos, falou alto ao microfone. Ganhou a simpatia da maioria e o descontentamento de outros.

Ao falar sobre Tendências da comunicação, ele mostrou o quanto o mediador pode ser criativo. “Não é o espaço que te define, você que cria o espaço. O seu público nasce com o texto”, afirma. Durante todo o painel, defendeu a escrita criativa e o bom humor. Contrariando o aprendizado em sala de aula, Carpinejar aconselhou os alunos a se envolverem com as fontes e defendeu que todo texto é autoral.

Segundo Carpinejar, todo jornalista deve ter um blog, mas não para usá-lo como diário e sim, como um espaço de treinamento da escrita e da criatividade. “O jornalista precisa de um tempo autoral”, defende.

Famurs em pauta

O último painel fez muitas pessoas irem embora. Sandra Domit, jornalista e assessora de comunicação da Famurs, se propôs a falar sobre Os desafios da comunicação municipal. Contudo, se deteve muito a explicar como funciona a empresa para qual trabalha e a contar sua autobiografia.

Balanço

Algumas palestras ficaram lotadas e deixaram muitos interessados sentados no chão ou do lado de fora. Faltou à presença de jornalistas de outras empresas, quase só compareceram profissionais da RBS. O mascote do evento, o elefante Tunico, não agradou muito e passou a ser visto como sem graça e infantil. A organização e a divulgação deixaram a desejar.

Mesmo assim, o saldo final da Semana da Comunicação foi positivo. Dificilmente temos a oportunidade de debater a comunicação na Unisinos com profissionais da área. De graça e valendo horas complementares então, é algo mais raro ainda.

Acompanhe alguns momentos do seminário.

1 comment Junho 10, 2008

Rosane de Oliveira

A jornalista Rosane de Oliveira, 47 anos, nasceu em Campos Borges, no Rio Grande do Sul. Formou-se em jornalismo em 1982, na PUCRS, e atualmente trabalha em diversas mídias do Grupo RBS. Além de ser editora de política, é culunista do jornal Zero Hora, apresentadora do programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, e comentarista da TVCOM.

Antes de ingressar na RBS essa jornalista multimidiática trabalhou nas rádios Guaíba e Pampa como redatora e repórter. Rosane também atuou no jornal Correio do Povo, onde exercia a função de editora de Política e de Economia.

Procurando especialização, a jornalista fez, em 1999, o Master em Jornalismo para Editores na Universidade de Navarra, no Centro de Extensão Universitária de São Paulo.

1 comment Junho 10, 2008

Solidariedade, o ato que pode mudar a vida do outro e a sua

A relação do ser humano com os seus semelhantes é algo realmente complexo. Fiquei pensando sobre essas questões após o dia 17 de maio, que foi o Dia da Solidariedade.

No dia-a-dia somos cercamos por uma controvérsia assustadora, solidariedade de um lado e egoísmo e inveja de outro. Com a chegada do inverno isso fica ainda mais visível. Enquanto diversas campanhas são organizadas para recolher doações de agasalhos e alimentos, algumas pessoas que podem ajudar, simplesmente não fazem a sua parte. Será que falta tempo para retirar o inutilizado do guarda-roupa e do armário da cozinha? Ou será desconhecimento das campanhas? Não e não, é ignorância mesmo.

Considero ignorante não aquele que nada sabe, mas sim, o sujeito que tem todos os meios para se informar e aprender, mas não os utiliza por pura falta de interesse. Infelizmente existem pessoas que só dão valor as coisas materiais e vêem o outro como um inimigo, um estorvo. O pior é que cada vez mais cedo o ser humano vai construindo esse lado escuro.

Às vezes tenho medo do futuro. Vejo crianças que não dividem seus brinquedos. A magia e a felicidade despertadas por esses objetos foram substituídas pelo sentimento de inveja. “O meu é melhor”, “Eu tenho e você não”, “Mas o meu é importado”, essas são apenas algumas frases de pequenos consumistas. Dominados pelo sistema Capitalista, algumas crianças não querem mais o objeto para brincar, muitas vezes ele fica jogando em um canto qualquer, elas o usam para provocar e suscitar a ira dos amigos. E não basta um brinquedo, tem que ser vários e o da última geração.

O que serão destes pequenos? Adultos que só sabem olhar para seu próprio umbigo, esquecendo de valorizar a maravilha das pequenas coisas. Profissionais que não vão pensar duas vezes antes de “puxar o tapete” do colega para ganhar um melhor cargo na empresa. Homens e mulheres solitários e sem bons sentimentos.

Eles nunca vão saber como é a sensação de ficar com os olhos cheios de lágrimas e o coração a explodir ao ver uma criança sorrir quando recebe um simples carrinho ou uma boneca usada. Eles nunca vão receber um “muito obrigado” ao dividir um lanche ou simplesmente por escutar um colega que está com problemas e precisa de um ombro amigo. Eles nunca vão estar rodeados de pessoas especiais que conseguem transformar um dia qualquer em um momento inesquecível.

Se as crianças são o futuro da nação, elas devem saber desde cedo o significado teórico e prático da solidariedade. Todavia, se um adulto ainda não aprendeu o que isso significa já está mais do que na hora de compartilhar e doar.

Caso você queira se tornar mais solidário e menos egoísta não precisa ir longe pra achar pessoas que estão precisando de ajuda, pode ficar sentado no sofá da sua casa. Diariamente homens, mulheres e crianças batem na porta das residências a procura de doações. Sou contra dar dinheiro, contudo acredito que um quilo de alimento ou um blusão não irão lhe fazer falta. É muito triste ver nossos semelhantes deitados nas calçadas da cidade passando frio e fome.

Faça a sua parte e mude esse cenário. Apóie e participe de projetos solidários organizados por ONG’s e prefeituras. Não deixe de praticar a solidariedade. Estender a mão ao próximo é um ato que pode salvar a vida do outro e a sua alma.

Matéria publicada no site Novohamburgo.org

1 comment Maio 27, 2008

A semana em que o Rio dos Sinos virou celebridade

Quem ainda acha que congestionamento de quilômetros só existe em São Paulo está muito enganado. Durante toda quarta e quinta feira (07 e 08/05) a BR116, no sentido São Leopoldo-Porto Alegre, e as pontes 25 de Julho e Henrique Luiz Roessler, localizadas no Centro de São Leopoldo, ficaram trancadas devido à imprudência dos motoristas e da população. A lentidão do tráfego foi causada pela redução da velocidade dos veículos para ver a enchente do Rio dos Sinos.

Eu acompanhei de perto esse caos, pois, ao me dirigir do Centro de Novo Hamburgo a Unisinos, levei duas horas, ao invés de uma, como de costume.

Veja mais informações no meu Blog sobre esse assunto na página Congestionamentos.

Add comment Maio 20, 2008

Uma grande obra composta de pequenos detalhes

Era para ser um assalto sem testemunhas, lucrável e que mudaria a vida de Perry Edward Smith e Richard Eugene Hickock. Os comparsas acreditavam que na casa do fazendeiro Clutter existia um cofre com milhares de dólares. No entanto, não encontraram a sonhada mina de ouro, deparam-se, apenas, com alguns trocados. Dominados pela cólera do momento, os assaltantes mataram, a sangue frio, os quatro integrantes da família Clutter. O plano acabou rendendo a Smith e Hickock quarenta dólares, um rádio, um binóculo e duas penas de morte.

Esta tragédia foi relatada, nos mínimos detalhes, no livro A Sangue Frio, escrito por Truman Capote. Em 1959, o escritor leu no jornal The New York Times a notícia de um atroz assassinato cometido contra uma família no interior do Estado do Kansas, Estados Unidos. Como devia dinheiro a revista The New Yorker por trabalhos pagos que ele nunca fez, Capote se propôs a realizar uma grande reportagem investigativa sobre o caso. Depois de seis anos, oito mil páginas de anotações e dezenas de entrevistas, a história foi publicada, em quatro partes, na revista The New Yorker. Não demorou muito para virar mais que um livro, uma verdadeira obra de arte do jornalismo literário, e tornar-se imenso sucesso de vendas.

O escritor utilizou mais de cinqüenta páginas para descrever a cidade de Holcomb, a família Clutter e os assassinos antes de chegar ao relato do crime. A narrativa segue contando à história da vida de Hickock e Smith, além de descrever circunstâncias presentes e passadas e pessoas ligadas aos seis personagens principais. O restante do livro destina-se ao desenrolar das investigações, aos dias em que os criminosos passaram no corredor da morte para, finalmente, nas últimas páginas, encerrar com as execuções.

Ruas empoeiradas e sem nome, um correio, uma escola, dois postos de serviço e alguns prédios. Esta é a cidade de Holmcob, um lugar onde nenhum trem de passeio para, apenas um ou outro de carga. Localizada nas altas planícies de trigo, no oeste do Kansas, centro do Estados Unidos, acolhe 270 habitantes, compostos, em sua maioria, por imigrantes das mais variadas origens. Um local ideal para criar gado e carneiro e plantar trigo, milho, beterraba e sementes de grama. Por ser tão pacata, era pouco conhecida até meados de novembro de 1959, quando tiros de espingarda juntarem-se aos costumeiros ruídos noturnos da cidade.

O proprietário da River Valley Farm e pai de quatro filhos, Hebert William Clutter, 48 anos, era o cidadão mais popular e respeitável da comunidade de Holocomb. Detinha vigorosa forma física e gozava de muita saúde, ao contrário de sua mulher, Bonnie Fox, 45 anos. A Senhora Clutter vivia num clima de angústia. Seu nervosismo se acentuou após o nascimento dos seus dois últimos filhos, Nancy e Kanyon. Nancy era uma menina cheia de qualidades e de compromissos. Excelente musicista, dividia seu tempo entre ajudar os outros e a cozinhar, costurar e estudar. Seu irmão, Kaynon, um rapaz alto e forte, tinha poucos amigos. Seu hobby era caçar coelhos, disputar corridas de caminhão com os coiotes e trabalhar com madeira.

Todos foram mortos com um tiro na cabeça por dois homens vaidosos e meticulosos. A amizade entre Perry e Hickock começou ao dividirem a mesma cela na Penitenciária do Estado do Kansas. Homem robusto, mas de corpo desproporcional, Smith, 36 anos, tinha um vocabulário rico. Sonhava em procurar tesouros e gostava de cantar e tocar violão. Mudava de gênio repentinamente e tinha intuições perturbadoras. Foi ele o autor dos quatro disparos. Hickock, 33 anos, mecânico hábil, tinha o corpo de um atleta. Não acredita em superstições e caloteava qualquer pessoa que cruzava seu caminho. Foi o cérebro do crime.

Comandado pelo representante do Departamento de Garden City, Alvin Adams Dewey, as investigações foram realizadas pelos três agentes especiais do Departamento de Investigação do Kansas (DIK): Harold Nye, Roy Church e Clarence Duntz. Após algumas pistas e diversos interrogatórios, o crime só foi desvendado através de uma testemunha: Floyd Wells. Assim como Smith, Wells conheceu Hickock ao compartilharem a mesma cela na penitenciária de Lansing. Baixo e quase sem queixo, trabalhou durante um ano na propriedade do fazendeiro Clutter. Em um dia qualquer, os presos começaram a discutir sobre seus antigos empregos. Wells acabou falando do trabalho que prestou em uma imensa fazenda na cidade de Holcomb, propriedade de um homem repleto de posses.

Depois disso, Hickock não parava de fazer perguntas sobre a família do fazendeiro e pedia detalhes da casa e de sua localização. A partir dessas informações, arquitetou o crime e convidou Smith para ajudá-lo na execução do mesmo. Quando escutou a notícia do assassinato no rádio, Wells contou essa história ao diretor da penitenciária, o qual entrou imediatamente em contato com Alvin Dewey.

O desfecho de toda essa história aconteceu no dia 14 de abril de 1965. Depois de quase dois mil dias de encarceramento no corredor da morte, Perry Smith e Richard Hickock foram, finalmente, enforcados.

Entrelaçando jornalismo e literatura, Capote declarou ter criado um novo gênero literário, o romance de não-ficção. Durante as entrevistas que fez, nunca se apoiou em anotações e, tampouco, contou com o auxilio de gravador. Segundo ele, estes dois aportes prejudicam a observação do ambiente e dos sujeitos, além de inibirem o entrevistado. Mesmo assim, seu índice de aproveitamento dos relatos, dizia ele, chegavam a 95% de precisão.

Grandes polêmicas surgiram após a publicação do livro e das declarações do autor. Diversos literatos comprovaram que Capote não foi o criador, mas sim deu continuidade ao romance não-ficcional. O escritor também foi acusado de beneficiar-se financeira e literariamente da morte dos assassinos e da falta de precisão dos depoimentos dados sobre o caso.

Apesar do cuidado que teve de não se evidenciar na narrativa, percebe-se que o Capote analisou psicologicamente e socialmente os personagens. O escritor relata as circunstâncias em que os assassinos foram criados e as más influências que sofreram ao longo da vida. Em contrapartida, descreve um exemplo de estrutura familiar de dar inveja a qualquer um. Deste modo, parece tentar justificar, nas entrelinhas, que Smith e Hickock não eram seres excessivamente monstruosos como se achava, mas apenas homens abalados pela falta de oportunidade e a demasiada crueldade imposta pelo destino.

Não há como negar o envolvimento do escritor com os dois assassinos, em especial com Perry Smith. Alguns policiais defendiam veementemente que o Capote e Smith eram amantes, outros dizem que pagou cinqüenta dólares para ter uma conversa inicial com os criminosos. Lendas ou não, o fato é que Truman Capote consagrou-se com o livro A Sangue Frio. É inquestionável a sua qualidade textual, a riqueza de detalhes dos lugares e das sensações, e o mergulho jornalístico utilizado na apuração dos fatos. Quando começamos a leitura, não conseguimos mais nos desvencilhar dela até chegar à última página. Mais que um exemplo de jornalismo literário, A Sangue Frio é leitura indispensável a qualquer jornalista.

Em 2005, sob a direção de Bennett Miller, a história de Capote virou filme. Veja o trailer.


Add comment Maio 20, 2008

Mãe, é mãe, até mesmo do outro lado do mundo

O marido, o filho mais velho e o futuro neto de Agnes estão na China

Maria Agnes Graeff Machado, 51 anos, é natural de Dois Irmãos. Quando ela ainda era bebê, os pais vieram morar no bairro Vila Nova, em Novo Hamburgo, onde abriram um mini-mercado e tiveram mais quatro filhos. Em outubro de 1975 casou-se com João Luiz Machado, aos 18 anos, e teve o primeiro filho, o qual chamou de Fabiano. Dois anos depois, voltou a estudar, terminou o Ensino Médio e cursou Magistério. Quando o filho estava com seis anos começou a pedir um irmãozinho e, em 1983, Agnes deu a luz a Fábio e, quatro anos mais tarde, a Fernanda.

Como o marido viajava a cada 15 dias há trabalho, precisou deixar de lecionar para ficar em casa cuidando dos filhos, até que todos tivessem autonomia de ir e vir da escola. Voltou a trabalhar quando Fernanda estava com nove anos. Nunca deixou de alimentar o sonho de cursar o Ensino Superior. Em 2000 iniciou o curso de Pedagogia na Unisinos e em julho de 2007 se formou. Contudo, só em dezembro recebeu o presente de formatura: ficou sabendo que seria avó.

A vida da mãe Agnes se parece como tantas outras histórias, exceto por três grandes detalhes: o marido reside há cinco anos em Guangzhou, na China, e, há dois anos, o Fabiano se mudou para Pequim com a esposa, onde decidiram ter um filho. Mesmo com os três morando do outro lado do mundo, ela sempre está sorrindo. A mãe dedicada e preocupada com a educação dos filhos, sente-se muito orgulhosa da família que constituiu.

Na sexta-feira, dia 03, a estudante de jornalismo Daniela Cristina Machado foi entrevistar Agnes na sua casa. Conheça um pouco mais da sua história de vida e saiba como essa mãe dribla a saudade do marido, do filho mais velho, da nora e do futuro neto.

novohamburgo.org / Daniela – Conte como você conheceu seu marido e como foi a sua primeira gravidez.

Agnes – Eu conheci o João no “Colégio Pasqualini”. Começamos a namorar em um passeio que fizemos com a turma da escola, na época eu tinha 16 anos. Quando completamos um ano de namoro, ele me pediu em noivado e já iniciamos o enxoval. Casei-me com 18 anos e fomos morar ao lado do armazém do meu pai. Aos 19 anos ganhei meu primeiro filho e tive que parar de estudar, só faltava um ano para me formar no Ensino Médio. Compramos um terreno no bairro Canudos e nos mudamos para lá.

novohamburgo.org / Daniela – Você voltou a estudar depois disso?

Agnes – Sim, quando o Fabiano completou dois anos eu voltei a estudar. Deixava-o com a minha sogra no turno da tarde e ia para o “Colégio Santa Catarina” concluir o Ensino Médio e fazer o curso de Magistério. Comecei a dar aula em 1981 na “Escola Estadual João Ribeiro”, no bairro Canudos, para uma classe de 32 alunos. No final deste mesmo ano, fiz um concurso da Prefeitura e passei a lecionar na Rede Municipal de Ensino.

novohamburgo.org / Daniela – Depois disso você engravidou de mais um menino. O Fabiano não sentiu ciúmes?

Agnes – Não, muito pelo contrário. O Fabiano tinha seis anos, já estava na pré-escola e via que todos seus coleguinhas tinham irmãos. Então, ele seguido pedia um irmãozinho. Lembro-me que em agosto, no Dia dos Pais, ele tinha que levar alguns objetos que o pai utilizava no trabalho e, como o João sempre trabalhou na área coureiro-calçadista, deu para ele uma cepa de madeira. Quando o Fabiano chegou em casa naquela noite, a colocou do lado de sua cama e disse que aquilo ali era o seu irmão. No mês de dezembro daquele mesmo ano descobri que estava grávida e, em agosto de 1983, tive o Fábio. O Fabiano ficou muito feliz com a chegada do irmão, não me lembro de ter visto ele com ciúmes. Os dois sempre brincavam e, quando o Fábio já estava com uns cinco anos, o Fabiano o levava junto no Centro para alugarem fitas de vídeo-game.

novohamburgo.org / Daniela – Como foi à chegada de uma menina na família Machado?

Agnes – Quando eu engravidei pela terceira vez todos da família diziam que eu tinha que ter uma menina, mas no fundo achava que seria mais um menino, até já sabia o nome que colocaria nele. Todas as roupinhas que comprei eram cores neutras, como branco, amarelo e verde, só havia comprado um tip-top rosa. Porém, na noite anterior ao parto, uma de minhas cunhadas sugeriu que eu colocasse o nome de Fernanda caso o bebê fosse menina. Na mala que preparei para levar ao hospital, coloquei, bem no fundo, um tope rosa que fiz com uma fita mimosa. No dia seguinte, antes de entrar na sala de parto, falei para a minha sogra que, se caso nascesse uma menina, era para ela pegar o tope que estava no fundo da sacola e prender no cabelo do bebê. A Fernanda nasceu e foi àquela festa. A minha sogra foi correndo pegar o tope.

novohamburgo.org / Daniela – Você, como professora, deve ter sempre incentivado seus filhos a estudarem.

Agnes Eu sempre gostei muito de estudar. Meu marido só conseguiu terminar o segundo grau e eu, no final de 2007, me formei em Pedagogia na Unisinos. Nós sempre demos prioridade para a educação de nossos filhos. No turno contrário as aulas, todos praticavam algum esporte e faziam inglês. Sempre acreditamos que a língua estrangeira traria boas oportunidades para eles. Em casa, os três tinham que fazer o tema antes de brincar, isso era indispensável. O meu marido trabalhava muito e não podia estar tão presente quanto eu, mas ele sempre incentivava as crianças a estudarem. O Fabiano se formou em Comércio Exterior na Unisinos, o Fábio se forma no início de 2009 em Publicidade e Propaganda, também na Unisinos, e a Fernanda está cursando Designer na Feevale.

novohamburgo.org / Daniela – Então, vocês achavam importante os filhos, mesmo ainda sendo pequenos, estudarem um outro idioma?

Agnes – Com certeza. O Fabiano conheceu a esposa no segundo grau e os dois faziam curso de inglês. Desde que se formaram no Ensino Médio, começaram a trabalhar e economizaram para viajar aos Estados Unidos. Ficaram dois meses lá, onde fizeram um curso de inglês. Quando voltaram, conseguiram bons empregos. Depois o Fabiano começou a trabalhar na Dell e, em 2006, a empresa o transferiu para uma de suas filiais na China.

novohamburgo.org / Daniela – No final do ano passado você descobriu que seria avó. Como você recebeu essa notícia e como lida com a distância?

Agnes – Quando soube que seria avó foi uma emoção indescritível. Na ecografia deu 85% de chances de ser um menino. O Fabiano e a Lisandra até já escolheram nome: Guilherme. O bebê só nasce em julho, mas já tem até perfil no Orkut e todas as “ecos” que a minha nora faz ela posta no YouTube, além de nos enviar diversas fotos por e-mail. Nos finais de semana falo com eles pelo MSN. Eu queria muito que tivessem um filho, porque já estão preparados para isso. As pessoas acham que é fácil ir morar fora do país, mas as coisas são bem mais complicadas do que imaginamos. No primeiro mês que o Fabiano e a Lisandra estavam lá tiveram vontade de vir embora, mas agora eles não têm previsão de quando vão voltar, porque gostam de mais da China, a qualidade de vida é muito superior a nossa. A distância é ruim, mas não sofro com isso, porque fico feliz em saber que eles estão bem. Nas datas especiais a saudade aumenta ainda mais, mas sempre damos um jeito de manter contato.

novohamburgo.org / Daniela – Como você mantém a sua relação com o eu marido

Agnes - Todas as noites converso com o João pelo MSN ou pelo telefone. Com o tempo aprendi a lidar com a saudade. O ser humano se adapta rápido as situações que lhes são impostas. O namorado da minha filha mora na Itália e sei que daqui algum tempo ela também vai ir embora. O meu outro filho, o Fábio, está com planos de, futuramente, trabalhar fora do país. Vamos esperar para ver o que acontece.

novohamburgo.org / Daniela – Em sua opinião, o que significa ser mãe e como uma mãe deve agir como seus filhos?

Agnes – Nenhuma mãe é perfeita. A gente sempre acha que poderia ter feitos algumas coisas diferentes. O que importa é ser coerente como o que se diz e com o que se faz. As ações e as palavras são de extrema importância. A mãe sempre deve incentivar os seus filhos a serem alguém na vida e valorizar as coisas que eles fazem. Cada filho tem as suas qualidades e os seus defeitos. Além disso, é claro, a mãe deve dar muito amor, carinho e atenção a eles.

novohamburgo.org / Daniela – O que você sente pelos seus filhos?

Agnes – Sinto muito orgulho de todos eles. Me emociono ao falar disso. E sei que eles ainda vão me dar muitas alegrias.

Entrevista publicada no site Novohamburgo.org

Add comment Maio 11, 2008

A mãe que é exemplo de perseverança

Aos 85 anos, 62 dedicados aos filhos, Ana Pilatti é a primeira entrevistada da seção Perfil Especial do Dia das Mães

Natural da zona rural de Canela, do distrito de Banhado Grande, Ana morava junto com os pais Ângelo e Rosália Carniel, descendentes de italianos, e com os 12 irmãos. Aos seis anos foi para a escola, mas três anos depois teve que deixar os cadernos de lado para ajudar a família. Casou aos 21anos com Tealmo Pilatti e foram morar no distrito de Carol, também na zona rural do município de Canela, onde tiveram dez filhos, cinco homens e cinco mulheres. No interior, o único modo de sobrevivência era baseado na agricultura e, por isso, a vida do casal se resumia a trabalhar e cuidar dos filhos.

Todos os dias, Ana precisava acordar cedo para tirar leite das vacas e tratar os animais (vacas, bois, galinhas e porcos). Quando fazia sol, ia para a roça com o marido e os filhos. Quando chovia, o destino da família era o galpão, onde descascavam milho e faziam vassouras de palha. Se uma das crianças ficava doente, Ana recorria aos chás e remédios caseiros. Se o caso fosse grave, andava 10 km para chegar até o médio mais próximo.

Durante as dez gestações, nunca teve acompanhamento médico e dos dez partos, nove foram feitos em casa pela parteira Luiza Schuantz. Ana veio morar em Novo Hamburgo no bairro Vila Mentz em 1975, devido aos problemas de saúde de Tealmo. Hoje, ela reside no bairro Rio Branco com as filhas gêmeas.

Mesmo tendo perdido dois filhos e o marido, nunca encontramos a vó Ana, como é conhecida por todos, desanimada. Essa senhora baixinha de cabelos brancos possui uma alegria de viver inigualável. Ana é um grande exemplo de vida. Todas as dificuldades pelas quais passou foram um estímulo a mais para ela nunca desistir. Com o sorriso sempre estampado no rosto, conquista a todos com o seu jeito calmo e amoroso. Os oito netos e o bisneto são os seus xodós.

Para passar o tempo, faz crochê e lê jornais e revistas. Às vezes, quando não está conversando com alguém, começa a cantar, animando ainda mais o ambiente. Na sexta-feira, dia 25, a estudante de jornalismo Daniela Cristina Machado foi entrevistar Ana na sua casa. Conheça um pouco mais da vida e da história dessa mãe mais do que experiente.

novohamburgo.org / Daniela – Como era a rotina da senhora lá em Canela?

Ana Pilatti – Eu acordava às 5 horas da manhã e fazia fogo no fogão a lenha. Enquanto o fogão esquentava, ia tirar o leite das vacas e tratar os animais. Voltava pra casa, fazia o café e a arrumava a merenda para as crianças levarem a escola. Quando não tinha pão, eu fritava bolinho pra elas comerem no café da manhã. Era assim, se a gente tinha uma coisa, faltava outra. Sempre tinha que inventar, dar um jeito, mas nunca passamos fome lá em casa. Se tinha pouca coisa, a gente dividia igual para cada um. Eu e meu marido, com a ajuda dos filhos mais velhos, passávamos o dia inteiro na roça plantando. A gente conseguia vender frutas, vassouras, galinhas e ovos. Com esse dinheiro nós comprávamos os mantimentos que não conseguíamos produzir em casa, como açúcar, sal e café. Eu também fazia schimier pra vender e costurava para os vizinhos. Aprendi a costurar com Angelina, uma de minhas irmãs. Depois que estava bem treinada, ela me deu uma máquina de pedal de presente. Como naquela época não tinha energia elétrica, costurava a luz de velas, com as crianças na minha volta.

novogamburgo.org /Daniela – Onde a senhora conheceu o seu marido? Como foi o dia do seu casamento?

Ana Pilatti – Eu conheci o Tealmo em uma festa da Igreja, no Banhado Grande. A gente ficou conversando durante a festa. Eu tinha 21 anos e ele 29 quando a gente se casou. Nosso primeiro beijo foi nesse dia. Eu estava muito feliz, porque estava casando com o homem que eu escolhi e que gostava muito. Até hoje me lembro do meu vestido de noiva ele era bem volumoso. O Tealmo era muito trabalhador e companheiro, a gente sempre foi mais amigos do que marido e mulher. Nós gostávamos muito de conversar. Faz 13 anos que Deus levou ele de mim. Tenho muitas saudades dele.


novohamburgo.org/Daniela – Conte como foi a sua primeira gravidez.

Ana Pilatti – Eu tinha por volta de 23 anos. Quando descobri que estava grávida, fiquei com um pouco de medo, porque não tinha muita prática em cuidar de crianças. Nasceu um lindo menino e decidimos colocar o nome dele de Ivo. Naquela época, o hospital ficava muito longe de nossa casa. Por isso, os partos das pessoas que moravam no interior eram feitos em casa por uma parteira

novohamburgo.org/Daniela – Ao todo, a senhora teve dez filhos, sendo que o último parto foi de gêmeos. A senhora sabia que estava grávida de duas crianças ao mesmo tempo?

Ana Pilatti – Eu não sabia. A gente não ia ao médico, só quando estava doente. Nessa minha última gestação estranhei o tamanho da barriga, que estava muito maior do que normalmente ficava. Nas duas semanas que antecederam o parto eu não conseguia mais deitar na cama, dormia sentada na cadeira, porque a barriga estava muito pesada. Quando as gêmeas nasceram fiquei muito feliz ao ver aquelas duas lindas meninas. Como eu sabia costurar, fazia roupas iguais para elas usarem. As pessoas que não eram de casa nunca sabiam que era a Maria da Graça e a Maria de Fátima. Elas se vestiram iguais até a adolescência, depois cada uma usava aquilo que mais gostava, mas até hoje tem gente que confunde as duas.

novohamburgo.org/Daniela – O seu marido ajudava a senhora a cuidar das crianças?

Ana Pilatti - Ele ajudava sim, quando não estava trabalhando na roça brincava com as crianças. Me lembro que ele comprava alguns metros de tecido e fazia as fraldas de pano para eu colocar nos bebês.

novohamburgo.org/Daniela - A senhora só foi três anos na escola. Mesmo assim, incentivou os seus filhos a estudarem?

Ana Pilatti – Eu fui até a 3ª série na escola, porque precisava ajudar os meus pais na lida da roça, mas eu gostava muito de estudar. A pessoa que não tem estudo é uma inútil, porque dificilmente ele vai conseguir emprego. Sempre incentivei os meus filhos a estudarem, queria que eles fossem alguém na vida. Hoje todos trabalham e tem a sua casinha, as suas coisas. Tenho muito orgulho de todos eles.

novohamburgo.org/Daniela – Hoje em dia é mais fácil criar um filho?

Ana Pilatti - Não sei se é mais fácil, porque naquela época as coisas eram meio precárias. Hoje as pessoas tem tudo, mas elas não se respeitam mais. Cada vez o mundo está pior. A violência está de mais, as pessoas se matam por coisas bobas. Antigamente os filhos respeitavam mais os pais, não precisava nem falar. O meu marido só olhava pras crianças quando elas estavam fazendo alguma arte e elas já corriam para o quarto. Hoje as crianças respondem pros pais, tem umas que até batem neles. Os valores mudaram muito. As pessoas precisam ter Deus no coração, só assim vamos conseguir alcançar a paz.

novohamburgo.org/Daniela – Qual o sentimento que a senhora tem pelos seus filhos?

Ana Pilatti – Amor, amizade, um sentimento bem louco. Tenho saudade de todos eles e quero que fiquem sempre perto de mim. Mas eu sabia que quando crescessem cada um seguiria o seu próprio caminho. Tenho dois filhos que moram em Canela e uma em Dois Irmãos, os outros moram aqui em Novo Hamburgo. Sempre que podem eles vem me visitar. Quando não conseguem estar comigo, me ligam pra matar a saudade.

novohamburgo.org/Daniela – Dois filhos da senhora faleceram. Como conseguiu superar essas perdas?

Ana Pilatti – O Luiz Paulo morreu no dia do parto, com o cordão umbilical enrolado no pescoço e o Ivo morreu com 38 anos, de apendicite. É muito difícil perder um filho, é um sentimento de dor sem fim. Quando o Ivo morreu eu chorava sem parar durante vários dias, mas vi que tinha outros oito filhos que precisavam de mim. Isso me deu forças pra seguir em frente.

novohamburgo.org/Daniela – Em sua opinião, o que significa ser mãe?

Ana Pilatti – A mãe é o pilar da família, ela deve ser um exemplo para os filhos. Sem ela a família fica perdida. Tudo que eu aprendi com a minha mãe tentei passar para os meus filhos e hoje ele são bons pais e boas mães. A mãe deve ensinar os seus filhos a serem honestos, trabalhadores e não fazer o mal para as outras pessoas.

novohamburgo.org/Daniela – O que uma mulher deve fazer para ser uma boa mãe?

Ana Pilatti – Dar muito amor, carinho e educação para seus filhos. Grande parte do que somos é construído dentro de casa. Os pais devem passar valores para os seus filhos. Ter paciência também é fundamental.

novohamburgo.org/Daniela – Tem algum sonho que a senhora ainda não conseguiu realizar?

Ana Pilatti – Não, tudo que eu sonhava eu realizei. Queria ter uma casa, uma família e saúde pra tocar a vida. Tudo isso eu consegui.

Entrevista publicada no site Novohamburgo.org

Add comment Maio 8, 2008

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Um pouco sobre mim...

Estudante do 5ª semestre do Curso de Jornalismo da Unisinos. Estagiária da Gerência de Projetos da Brivia. Colaboradora do Projeto Mídia e Memórias Palimpsestos Midiatizados de Memória Étnica na Recepção. Colunista do Site Novohamburgo.org sobre o tema Cotidiano.

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